Díli, 22 (AE-AP) - Um dia depois de seu regresso a Timor Leste, encerrando um exílio de sete ano, o líder timorense José Alexandre "Xanana" Gusmão, de 53 anos, fez hoje (22) de manhã um discurso emocionado para mais de 5 mil pessoas no centro da capital da ex-colônia portuguesa, Díli. Ele vestia um uniforme militar como o usado pelos guerrilheiros que lutaram contra o domínio indonésio - os quais comandou até ser preso em 1992 - e teve uma calorosa acolhida de seus compatriotas. Sua chegada, sob a escolta de soldados brasileiros que integram a Força Internacional de Paz da ONU para Timor Leste (Interfet), era esperada até o fim de semana, mas o dia foi mantido em segredo até o último momento por motivos de segurança.
"Nossa luta foi horrível demais, nosso sofrimento durou tempo demasiado. Mas, agora, queremos honrar nossos heróis. Agora, temos de olhar para frente", disse Gusmão, que parecia prestes a chorar. "Agora somos independentes para sempre. Não precisamos da Indonésia. Lutamos por 25 anos. Hoje estamos finalmente liberados." Timor Leste era colônia portuguesa até 1975, quando foi invadida pela Indonésia, que o anexou em 1976. A população local optou pela independência, em um referendo realizado em agosto, e esse resultado foi ratificado esta semana pelo Legislativo indonésio.
Dado seu carisma, Gusmão é apontado como o provável primeiro presidente de Timor Leste, na eleição que será realizada tão logo a ONU conclua a transferência de soberania para o território, período estimado em dois a três anos.
O Conselho de Segurança da ONU decidiu hoje votar na segunda-feira o plano apresentado pelo secretário-geral da organização, Kofi Annan, estabelecendo o envio de uma força militar, com cerca de 9 mil "capacetes azuis", e uma equipe de civis para administrar a região. O presidente do CS, Serguei Lavrov, informou hoje que os países membros do CS concordaram com as objeções da China a que esse plano faça menção a investigações sobre atrocidades cometidas contra civis em Timor Leste. A Administração de Transição da ONU para Timor leste (Untaet) substituirá a Interfet, força liderada pela Austrália e enviada à região em setembro, para conter a ação das milícias pró-Indonésia e restabelecer a ordem.
Após o referendo pelo qual a população aprovou a independência de Timor Leste, as milícias iniciaram uma campanha de terror contra os moradores simpatizantes dos rebeldes.
Timorenses ligados a líderes separatistas disseram que a moeda portuguesa, o escudo, deve ser a divisa do futuro país, mas ainda não está decidido se a língua oficial será o português ou o tetum, língua original da região. O escudo foi escolhido porque a economia da região é muito fraca para adotar moedas como o dólar australiano ou americano, comentou Mario Carrascalão, assessor de Gusmão.
Em Lisboa, o porta-voz do governo português negou que haja alguma decisão nesse sentido e reiterou que tudo dependerá da Untaet. Portugal comprometeu-se a pagar os salários dos funcionários civis de Timor Leste por seis meses, com escudos.

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