Xadrez da eternidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de abril de 2018
Por Paulo Briguet 

Hoje meu filho faz 8 anos. Até ontem ele era um bebê; hoje é um menino vivaz e amoroso, que fala sobre os países do mundo, adora ouvir histórias de mitologia e está aprendendo a jogar xadrez.
As aulas de xadrez do Pedro despertam-me recordações queridas. Quando morávamos em São Paulo, todas as noites meu pai jogava xadrez comigo. Depois do jantar, colocávamos o tabuleiro sobre a mesa da sala e ordenávamos as peças, sob o facho de uma luminária alaranjada. Lá fora, a metrópole emitia os sons e as luzes noturnas; se um carro de polícia passava com a sirene aberta pela Alameda Barão de Limeira, meu pai não perdia a piada:
O delegado está indo jantar...
A partida começava. Depois de alguns minutos, Paulo sempre estava em nítida vantagem. Ele era um bom jogador. E jamais jamais absteve-se de jogar a sério. Hoje eu percebo que jogar xadrez, para ele, era uma forma de me ensinar a viver. Uma das muitas formas de que ele se valia no papel de pai. Penso em nós dois, debruçados diante do tabuleiro e a minha consciência inteira assume a forma de saudade.
Depois do inevitável xeque-mate, Paulo me contava histórias sobre os grandes enxadristas da história, entre eles Capablanca, Alekhine, Bobby Fischer e o brasileiro Mequinho. Na época, acompanhamos pelo jornal a histórica sequência de duelos entre os russos Karpov e Korchnoi. Quem assinava as colunas sobre a disputa era o enxadrista brasileiro Herbert Carvalho, que chegamos a conhecer pessoalmente. Tive algumas aulas com Herbert, mas de pouco adiantou: continuei a ser um jogador medíocre.
Pedro faz 8 anos. O tabuleiro de xadrez é composto por oito fileiras (verticais) e oito colunas (horizontais). Neste pequeno universo quadriculado, movimentam-se as personagens dessa guerra silenciosa: Reis, Damas, Cavalos, Bispos, Torres e Peões. Cada um deles possui um simbolismo riquíssimo e representa diferentes desafios que enfrentamos durante a vida. Movemos Peões que avançam um passo de cada vez e com coragem abrem caminhos; movemos Torres que divisam o horizonte da realidade; movemos Bispos que representam a tensão do homem entre a matéria e o espírito; movemos Cavalos que saltam os obstáculos do percurso; movemos Damas que guerreiam com fortaleza em todas as direções; movemos Reis que guardam o que há de mais precioso na vida: a própria vida.
O xadrez é um jogo de sacrifício e atenção; de prudência e intuição; de autodomínio e desapego. Talvez por isso a grande Santa Teresa de Ávila tenha recomendado a prática do jogo às freiras de seu tempo. Pensando bem, a vida espiritual se parece mesmo um jogo em que tentamos um dar um xeque-mate em nós mesmos em nossas hesitações, angústias e medos.
Agora, estou me preparando para jogar xadrez com meu filho e, assim, reencontrar meu pai. Tenho esperança de um dia estarmos todos lá, sob a luz de Deus, no grande tabuleiro da eternidade.
Parabéns, meu filho. O lance é seu.
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