O Dia da Criança, comemorado anteontem, possui uma referência quase secreta em nosso Brasil continental: nada menos do que 108 mil crianças - portanto, 18 World Trade Centers lotados de bebês - estão morrendo antes de completar um aninho de vida. Cifra sinistra, compatível com os 53 milhões de parias, ou excluídos se preferirem, em todo o país. No Afeganistão, onde bombas e mísseis estão explodindo em nome da paz, uma em cada quatro crianças está morrendo antes de completar cinco anos e os adultos têm uma expectativa de vida que não excede os 44 anos de idade.
Os dados comparando nossa mortalidade infantil ao World Trade Center são de Milú Vilela, do Comitê Brasileiro do Ano Internacional do Voluntariado e da Associação Comunitária Despertar. Os referentes ao Afeganistão são da jornalista Ana Paula Padrão, que passou vinte dias na região, fazendo uma série de reportagens de alta qualidade para a TV Globo. São dados que cutucam o coração, espremem a alma e nos deixam angustiados, a menos que tenhamos perdido o mínimo de sensibilidade como seres humanos, discutindo ainda se nossa raça tem direitos. Raça antiga, a nossa. Raça complicada, também nossa. Raça difícil, que ainda não percebeu que todos nós guardamos indeléveis memórias da infância. E que Salomão tinha toda razão quando ensinou que basta ensinar a criança no caminho em que ela deve andar que, passados os anos, desse caminho ela não irá se desviar. Preferimos ensinar como as coisas não devem ser.
Nesse cenário em que nossas misérias desfilam, como seres humanos fracassados, vemos a milícia talibã impondo um regime de terror. Ou não é terrorismo arrancar as unhas de mulheres que usam esmalte, decepar mão de ladrão, escolher representante familiar de acusados por homicídios para executá-los, enterrar homossexuais vivos, deixando só a cabeça de fora, encharcando de sangue o gramado do estádio de futebol em Cabul? E a população civil, espremida entre esse terror em nome da religião e os bombardeios, recebendo bombas e simultaneamente sacos de alimentos enviados pelos Estados Unidos, num sarcasmo surrealista? É a bestificação, também intelectual, como resume muito bem o antropólogo Roberto Damatta: ''o fato é que, na busca linear e exclusiva de motivos, cercamos todos os quarteirões, mas deixamos escapar um grande criminoso. Seu nome não é comunismo, imperialismo, religião ou islã: é radicalismo''.
Visitei o World Trade Center em Nova York. Mais alto do que o Empire State, aquele que ficou conhecido por causa do filme King-Kong, o gorila que se refugiou no seu topo e enfrentou intenso bombardeio, possuía entre outras atrações uma minifloresta - árvores, flores e plantas concentradas num tipo de lugar que jamais se poderia imaginar. Impressionava, e muito, bem mais do que as fontes luminosas controladas por computador do Rockfeller Center e tinha para os turistas quase o mesmo charme que a estátua da liberdade, majestosa na Ilha de Manhattan. Tudo aquilo em ruínas, transformado em escombros ainda fumegantes, repleto de vítimas que simplesmente desapareceram, derretidas naquela insanidade que tanto regozijo causa em mentes poluídas, ou bestificadas como diz Damatta. Mas imaginar as torres, puxando para a nossa realidade, desabando a cada ano com 108 mil crianças, é demasiadamente cruel.
Esperança, futuro, dignidade, cidadania, palavras que estamos nos acostumando a ouvir mas que precisam estar em perfeita sincronia, e ainda não estão, com bastante vontade política, elevado senso de responsabilidade social e reconhecida capacidade técnica para reverter o quadro sinistro que envolve crianças brasileiras. As torres gêmeas de NY não resistiram ao impacto de dois aviões. Foi dramático, chocante, horripilante. Mas foi só uma vez. Nós, é preciso insistir, assistimos ao equivalente dezoito vezes por ano. Sem aviões. Sem desmoronamento. Sem chamas. Sem nuvens de pó. Aqui, o enorme edifício da desigualdade cai repetidas vezes, fica espatifado, e como Fênix ao contrário, desse pó ressurge outro edifício, para logo em seguida desabar novamente. Dezoito WTCs por ano quer dizer mais de uma vez por mês. Rigorosamente, uma vez e meia a cada trinta dias! O World Trade Center tupiniquim, cheio de crianças, é a nossa culpa, mea-culpa, nossa máxima culpa.

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