Washington, 12 (AE) - O presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, que se empenhou nos últimos cinco anos em reformar a instituição e integrar as organizações cívicas no desenho e na execução de seus programas de combate à pobreza, confessou-se ontem frustrado com as manifestações que dezenas desses grupos prometem fazer esta semana para denunciar o banco e o Fundo Monetário Internacional (FMI) como agentes das multinacionais e promotores da injustiça social na economia global.
O auge dos protestos deverá ocorrer no domingo, quando os ministros das finanças dos 182 países membros do BIRD e do FMI estarão em Washington para a reunião de primavera de seus órgãos deliberativos.
Com as sedes das duas instituições isoladas por um forte esquema de segurança montado pelas polícias local e federal, Wolfensohn não disfarçou seu abatimento com a situação criada pela ameaça dos manifestantes de impedir a realização do encontro, numa repetição do confronto nas ruas que contribuiu para o colapso da reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio (OMC), em Seattle, em dezembro passado.
"É claro que estou preocupado com o barulho lá fora", disse na entrevista coletiva inaugural do evento. "É impossível não ser afetado quando você trabalha numa instituição que lida com a justiça e com a pobreza", acrescentou. "É um pouco desmoralizante ver que há uma mobilização por justiça social quando você pensa que é isso que você faz todos os dias", afirmou.
Wolfensohn disse que está desapontado com o fato de a Coalizão pela Justiça Global - um conglomerado de dezenas de organizações não governamentais, sindicatos e grupos religiosos, a maioria dos Estados Unidos, que está por trás dos protestos - ter recusado convite para conversar com representantes do BIRD esta semana.
"Eu disse antes e repito que estamos prontos para discutir qualquer tema, com qualquer pessoa, a qualquer hora", afirmou. "Não há nenhum assunto que eu não esteja preparado para discutir; apenas lamento quando debate é evitado por causa de uma tentativa de se impedir que a reunião (do FMI e do BIRD) se realize".
O economista-chefe do FMI, Michael Mussa, disse que os manifestantes erram de alvo. Mussa, que é americano, afirmou que os políticos de seu país deveriam ser o destinatário da mensagens de protestos. " Todos os manifestantes que estão plenejando ficar em frente do FMI e do Banco Mundial deveriam dirigir-se ao Capitólio", disse ele, referindo-se à sede do Congresso dos EUA.
Mussa lembrou que são os políticos que determinam o nível da contribuição dos EUA à assistência ao desenvolvimento. Trata-se de algo que os manifestantes provavelmente gostariam de ver aumentado mas que uma crescente maioria de americanos rejeita.
Cerca de uma dúzia de manifestantes já foram presos em protestos ensaiados no início da semana. Hoje, no entanto, eles usaram o bom humor para marcar sua presença. Anunciaram, num jornal satírico de uma página intitulado "The Washington Lost" (literalmente, Washington Perdida), a decisão de Wolfensohn de renunciar "num último esforço para evitar ir para o inferno".
Por que Wolfensohn estaria preocupado com o inferno? A explicação, que o "Washington Lost", atribuiu ao presidente Bill Clinton, foram "os esforços incassáveis" do presidente do BIRD "para garantir que os camponeses do Terceiro Mundo pague até o último maldito centavo que os ditadores de seus países tomaram emprestado".
O "jornal" anunciou também a megafusão do Brasil e da Argentina num novo país chamado "Brazentina", que "será governado por uma diretoria executiva composta pelos quatro cidadãos mais ricos das duas antigas nações, com a Xuxa de fiscal e com voto de minerva".

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