Jacarta, 10 (AE-AP) - No ano passado ele puxou o tapete sob os pés do antigo ditador da Indonésia Suharto. Agora ele vai decidir se o presidente B.J. Habibie continuará no cargo ou terá de arrumar as malas.
A estrela do comandante militar e ministro da Defesa, general Wiranto, tem estado em ascensão desde que Suharto deixou o poder em maio de 1998.
Enquanto a crise no Timor Leste mina cada vez mais a liderança civil, Wiranto tem emergido como o principal fiel da balança do país apesar de alegações de que suas tropas estão por trás do banho de sangue promovido por milícias antiindependentistas.
Wiranto disse hoje que irá viajar neste sábado com uma delegação de alto nível da ONU para o território, a fim de provar que suas tropas estão se comportando adequadamente.
Em Washington, o comandante do Estado Maior conjunto dos EUA, general Henry H. Shelton, afirmou na quinta-feira a uma comissão do Senado que ele tinha telefonado duas vezes para Wiranto nos últimos dias.
"Eu... coloquei para ele em termos claros o que eu sentia que nós precisávamos ver da Indonésia e especificamente dele e do exército", disse Shelton à Comissão dos Serviços Armados do Senado. O testemunho de Shelton foi prestado no momento em que o presidente americano, Bill Clinton, suspendia relações com os militares indonésios por causa de seu papel na violência em Timor Leste.
A ascendência de Wiranto foi possível devido ao papel central que as forças armadas têm desempenhado na política da Indonésia desde sua independência da Holanda em 1945.
Inicialmente estabelecido como uma força anti-Aliados pelos invasores japoneses na Segunda Guerra Mundial - analistas atribuem seu desdém para com os civis e sua extrema brutalidade ao treinamento de tempo de guerra ministrado pelos japoneses - a principal obsessão do exército tem sido manter a unidade nacional.
Os militares foram os queridinhos de sucessivas administrações dos EUA durante a Guerra Fria por causa de seu sólido anticomunismo. Sua carnificina de cerca de 500.000 simpatizantes esquerdistas no final da década de 60 - no auge da Guerra do Vietnã - selou a amizade entre os dois exércitos.
Assessores americanos têm oferecido vasto treinamento antiinsurgência para os militares, que no desenrolar dos anos tem sido gradualmente transformados numa força de segurança doméstica.
Neste papel, os militares têm um direito constitucional não apenas de defender a integridade territorial do país, mas também de fiscalizar os assuntos civis do Estado.
A perda do apoio do exército decretou a morte política de Suharto - um general de cinco estrelas -, e muitos indonésios esperavam que os militares começassem a assumir um papel secundário na política.
Mas os militares ainda mantêm uma significativa presença no parlamento nacional de 500 cadeiras, onde Wiranto e outros generais irão nomear 38 deputados.
No ano passado, Wiranto evitou intrometer-se na campanha para as eleições do primeiro parlamento livre da Indonésia em 7 de junho. O partido de Megawati Sukarnoputri, filha do presidente fundador da Indonésia, emergiu como o vencedor e ele como a provável próxima chefe de Estado.
Alto, magro e de gestos refinados, o general de 52 anos tem uma presença marcante.
Ele tornou-se nacionalmente proeminente quando Suharto o promoveu ao mais alto posto militar em fevereiro de 1998. Ele serviu como ajudante de Suharto de 1989 a 1993, e uma foto do período mostra Suharto assinando um documento governamental apoiado nas costas de Wiranto.
Ele se formou como primeiro da classe na academia militar em 1968 e serviu por duas vezes em Timor Leste, onde suas tropas agora estão colaborando com milícias antiindependência numa orgia de violência depois que eleitores optaram pela independência.
Único entre a alta hierarquia, Wiranto nunca estudou em academias militares estrangeiras. Desde que teve início a turbulência em Timor Leste, ele tem se tornado cada vez mais afirmativo, provocando rumores de que um golpe de Estado contra Habibie está em gestação.
Ele tem rechaçado fortemente os rumores. Mas sabe-se que altos generais estão furiosos com Habibie por ele ter permitido a realização do referendo em Timor Leste.
Eles temem que a secessão de Timor Leste irá encorajar outras províncias descontentes a buscarem o mesmo caminho. Isto iria colocar em risco a unidade de uma nação naturalmente instável que os holandeses forjaram a partir de dezenas de povos independentes e que tem sido descrita como "um acidente da história colonial".
A posição estratégica da Indonésia e seu potencial econômico como o quarto país mais populoso do mundo têm feito com que governos estrangeiros sejam receosos em agir com extrema dureza para parar a carnificina em Timor Leste por causa da real possibilidade de que tal ação iria desnudar sua instabilidade.
"O dilema é que a Indonésia tem importância e Timor Leste não tem", comentou um diplomata ocidental.
Autoridades e diplomatas estrangeiros dizem que Wiranto já arrancou efetivamente muitos dos poderes de Habibie e assumiu o controle de fato do governo. Eles prevêem que ele irá decidir em algum momento se dará um golpe militar completo ou um golpe constitucional.
Mas eles destacaram que um movimento claro do exército para derrubar Habibie vai contra o interesse dos militares em longo prazo de promover uma transição pacífica em novembro.
Megawati já tem sinalizado que irá manter o atual papel dos militares na política indonésia, cumprindo desta forma o principal objetivo político de Wiranto.

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