Wellington é libertado depois de 94 dias
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de março de 1999
Agência Folha e Agência Estado 
fEd Ferreira/Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)TraumasWellington acena para fotógrafos da janela do Amparo Hospital e Maternidade, em Goiânia, depois de ser atendido pelos médicos. Ele teve dois terços da orelha esquerda decepados e está psicologicamente abaladoTerminou às 8h30 de ontem o sequestro do compositor Wellington José de Camargo, 28 anos, após 94 dias em poder dos sequestradores. O irmão de Zezé di Camargo e Luciano, da dupla sertaneja, foi encontrado em um mato ao lado de uma estrada vicinal em Guapó, na região metropolitana de Goiânia, pelo operário Donizete Vieira e seu irmão Aparecido Vieira, que passavam em uma motocicleta pelo local. Os dois viram Wellington, que é paraplégico, acenando de dentro do mato. Eles pararam a moto e Wellington se identificou. Donizete e Aparecido o colocaram na garupa da moto e, então, o operário o levou até o 3º Pelotão da Polícia Militar em Guapó, uma distância de aproximadamente oito quilômetros.
A família Camargo pagou na noite de sexta-feira o resgate exigido pelos sequestradores, no valor de US$ 300 mil (cerca de R$ 555 mil). As polícias Federal e Civil de Goiás já prenderam pelo menos cinco pessoas suspeitas do crime, entre elas dois policiais militares.
Provavelmente na madrugada ou manhã de sábado, Wellington foi abandonado dentro de uma vala com cerca de um metro e meio de profundidade, cercada por mato. Ele chegou pouco depois das 9 horas ao Amparo Hospital e Maternidade, em Goiânia, de acordo com o boletim médico em péssimo estado de higiene, fisicamente enfraquecido e com o estado emocional alterado. Ele tem ainda a orelha esquerda infeccionada - os sequestradores cortaram dois terços da sua orelha, quando mandaram para a família para pressionar e conseguir o dinheiro.
(Os sequestradores) Não tiveram com ele nenhum ato de piedade. O seu estado geral é péssimo. Ele foi abandonado para morrer, disse o médico Francisco Lobo, diretor clínico do hospital.
Wellington pouco falou com médicos e policiais. Ele deu apenas informações gerais. Todas as vezes que ia falar sobre o tratamento que recebeu dos sequestradores e dar detalhes, chorava muito. Por isso, os médicos decidiram não insistir.
Mas ele contou, por exemplo, que teve de se arrastar para sair da vala, e, também se arrastando pelo matagal, chegar até as margens da estrada - uma distância de aproximadamente 150 metros. Por isso, ele ficou com várias escoriações pelo corpo. Dentro da vala, havia um colchão pequeno e um travesseiro. Ele foi dopado com três comprimidos antes de ser colocado ali. Os médicos estimaram que ele foi dopado 24 horas antes de ser encontrado.
Ao delegado Eurípedes Fonseca, Wellington disse que no cativeiro - local não informado pela polícia até o final da tarde de ontem - era sempre vigiado por quatro ou cinco pessoas. Nesses 94 dias, ele comeu basicamente biscoito e frutas.
Aos médicos, ele disse também que ficou encapuzado boa parte dos 94 dias de cativeiro e que era constantemente ameaçado de morte. Wellington não soube precisar quando foi colocado na vala. Ao delegado Fonseca, disse que ficou na vala uma noite. Ao médico, duas noites. Ele se lembrou apenas que deixou o cativeiro dopado e encapuzado. Muitas pessoas passaram boa parte da manhã de ontem em frente ao hospital. Às 11h46, ele apareceu na janela, ao lado do irmão Emanuel Camargo, acenou e fez o sinal de positivo. Ele estava com a cabeça enfaixada. Wellington foi aplaudido pelas pessoas.
Os familiares do compositor souberam da libertação dele por policiais do Grupo Anti-Sequestro (GAS). Imediatamente, o irmão Emanuel Camargo e os pais Francisco e Helena Camargo dirigiram-se ao Hospital Amparo. Zezé di Camargo e Luciano estavam preparando-se para um show em Araripina (PE), quando receberam a notícia, mas só devem retornar à Goiânia hoje ou amanhã. A partir do sequestro de Wellington, a família Camargo vai mudar os hábitos, aumentando a segurança. Segundo Zezé di Camargo, Wellington não irá mais morar na casa do Jardim América onde fora sequestrado, nem com os pais, mas deverá ficar no apartamento que ganhou de presente da dupla. De hábitos simples, o Wellington era gerente de uma pamonharia pertencente à cunhada Gláucia, mulher de Emanuel.


