Washington se prepara para uma invasão de autoridades mundiais Da correspondente Monica Yanakiew
Washington, 19 (AE) - A capital da única superpotência mundial está se preparando para uma invasão. Nessa mesma semana, os líderes de 45 países e os ministros de uma centena de nações, acompanhados por suas comitivas, se reunirão em Washington para discutir a nova realidade política e econômica internacional e, em alguns casos, pessoal.
Aos debates sobre o maior problema desse momento e do próximo milênio (a instabilidade na era pós-guerra fria, que deveria ser marcada pela paz e prosperidade), somam-se discussões de ordem mais pragmática: como controlar o trânsito em Washington, de forma a evitar colisões entre limousines e carros oficiais e permitir que os ilustres hóspedes cheguem a seus compromissos a tempo.
Dos dois eventos, o maior será o cinquentenário da Otan. A idéia era comemorar os êxitos da organização militar de 19 países, responsável por 50 anos de paz numa Europa, destruída por duas grandes guerras nesse século. Mas muitos discursos, preparados com a devida antecipação, tiveram de ser revistos e adaptados.
Há um mês, pela primeira vez desde a sua criação, a Otan recorreu a seu poderio militar para perseguir objetivos diplomáticos. Sem declarar guerra e sem o consentimento do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a organização começou a bombardear a Iugoslávia para convencer seu presidente, Slodoban Milosevic, a negociar uma saída pacífica para Kosovo: a província iugoslava habitada por uma maioria albanesa que há uma década luta por sua autonomia perdida.
Mas até agora, a Otan fracassou em seu principal objetivo: evitar uma "limpeza étnica". Milhares de albaneses foram massacrados ou expulsos do Kosovo para países vizinhos, cujas frágeis democracias, pobres economias e múltiplas etnias e religiões, podem implodir a qualquer momento.
A guerra em Kosovo até alterou os planos do serviço postal americano. Diante da crise, foi cancelado o lançamento de um novo selo de 33 cents, mostrando uma pomba (o símbolo da paz) sobrevoando o logotipo da Otan. Não será a única mudança de rumo.
Nas comemorações, que começam na próxima quarta-feira, pelo menos três líderes terão de adotar posturas muito diferentes daquelas que marcaram suas carreiras políticas no passado. O presidente dos Estados Unidos e anfitrião, Bill Clinton, não poderá festejar o clima de segurança crescente na Europa, agora que a Otan acaba de acolher novos membros ( Polônia, República Tcheca e Hungria) e criar uma "sociedade para a paz" com outros 15 países (entre eles Albânia e Macedônia, diretamente afetados pela crise).
O mesmo homem que criticou a participação americana na guerra do Vietnã e escapou do serviço militar obrigatório hoje acha que somente a violência resolverá a crise na Iugoslávia. Na edição de domingo passado do jornal New York Times, a foto de um Clinton, 30 anos mais jovem, aparece ao lado de outra, de 1975, de outro pacifista de cabelos batendo no ombro: o atual primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair.
Blair hoje também acha que Milosevic só cederá à força. O mesmo pensa o chanceler da Alemanha, Gerhard Schroeder, que na década de 80 manifestava-se contra as armas nucleares, que simbolizaram a força da Otan.
"A Otan, de alguma forma, já está desempenhando seu novo papel - o mesmo papel que será discutido nessa reunião", disse Helmut Sonnenfeldt, um especialista da Brookings Institution. "A organização nunca foi concebida para desempenhar funções humanitárias, como ajudar a reconstruir um país ou garantir a segurança dos refugiados que voltam a suas casas, mas já está desempenhando esse papel", disse.
O que falta definir é onde e quando a Otan atuará. Quando foi criada, a organização só era mobilizada se um de seus membros era atacado - e ainda assim, se o ataque ocorresse no Atlântico Norte.
Quando a Argentina invadiu as Ilhas Malvinas, no Atlântico Sul
a organização não saiu em defesa da Grã-Bretanha. "Agora o conceito geográfico passa a ser mais amplo", disse Sonnenfeldt. Mas os limites ainda não são claros.
FMI - A segunda reunião que mobilizará Washington, essa semana
definirá a nova arquitetura do Fundo Monetário Internacional (FMI). A idéia era adaptar a instituição a uma nova realidade, de capitais mais voláteis. Mas os fatos aconteceram antes que os governos pudessem estudar medidas preventivas.
Somente nesses três últimos anos, as economias da ásia, da Rússia e do Brasil sofreram o impacto desse novo tipo de crise, afetando todos os mercados emergentes e, em alguns casos, os países industrializados. A partir de amanhã os ministros e presidentes dos Bancos Centrais de uma centena de países discutirão como evitar que isso volte a acontecer.





