Washington condiciona ajuda à Iugoslávia à saída de Milosevic
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quarta-feira, 02 de junho de 1999
Por Paulo Sotero 
Washington, 03 (AE) - O presidente Bill Clinton aplaudiu a decisão de Belgrado de aceitar as condições da Aliança Atlântica para encerrar o conflito com a Iugoslávia mas disse que quer ver "resultados reais"antes de concordar com uma suspensão dos bombardeios contra o país, que continuaram hoje, pelo septuagésimo terceiro dia.
A decisão do presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, de acatar os termos fixados pela OTAN, incluindo a retirada de suas tropas de Kosovo, "é, óbviamente, bem-vinda", disse Clinton, durante uma breve aparição nos jardins da Casa Branca. "Mas, por causa da experiência passada, temos que ser cautelosos", afirmou ele. "Primeiro, precisamos ter clareza de que os líderes sérvios aceitaram essas condições e pretendem implementá-las plenamente", explicou. "Até lá, e enquanto as forças sérvias não começarem uma retirada verificável de Kosovo, vamos continuar com a diplomacia mas vamos também continuar o esforço militar que nos trouxe até este ponto".
"Este é um momento de muita cautela", insistiu o porta-voz do Departamento de Estado, James Rubin. "Ainda não é hora de estourar a champagne". Segundo ele, "a chave é implementação, implementação e implementação". Outras fontes oficiais disseram que havia ainda muitas dúvidas hoje sobre os detalhes exatos das condições com as quais Belgrado concordou para encerrar o conflito, durante visita que os enviados da Rússia, Viktor Chernomyrdin, e da União Européia, o presidente da Finlândia, Martti Ahtisaari, fizeram a Belgrado. "Nós precisamos ver e verificar se está havendo uma retirada ( das forças sérvias), precisamos de um cronograma para medir o progresso da retirada"
afirmou o porta-voz da Casa Branca, Joe Lockhart. Só então, acrescentou ele, "poderia haver uma suspensão dos bombardeios".
A preocupação imediata de Washington é impedir que a disposição de capitulação manifestada por Belgrado produza divisões na Aliança seja sobre o momento de parar os bombardeios seja sobre as tarefas mais difíceis da complexa administração do pós-guerra. Segundo Lockhard, Clinton telefonou hoje à tarde para o primeiro-ministro da Alemanha, Gerhard Schroeder, e comunicou-lhe "que nós estamos bastante cautelosos aqui (em Washington)".
A outra preocupação da administração americana é usar o pós-guerra para isolar e neutralizar politicamente Milosevic dentro da Iugoslávia e levar à sua derrocada do poder. O objetivo é evitar a repetição do que aconteceu no Iraque, em 1991, quando os EUA e seus aliados impuseram uma humilhante derrota ao presidente Saddam Hussein mas não conseguiram, até hoje, removê-lo do poder. Belgrado mal havia anunciado sua capitulação e altos funcionários americanos passaram a declarar que não há lugar para Milosevic na Iugoslávia no pós-guerra. Eles disseram que Washington não apoiará a aprovação de financiamentos internacionais para a reconstrução da Iugoslávia - devastada por sete anos de sanções econômicas e dois meses e meio de bombardeios - enquanto o país não se redemocratizar e entregar Milosevic e outros sérvios acusados de crime de guerra à corte internacional de Haia. O presidente iugoslavo e quatro membros de seus governo foram indiciados no último dia 27 por crimes cometidos este ano contra a população albanesa de Kosovo.
Rubin, do departamento de Estado, disse que a rendição do presidente iugoslavo à Corte internacional não era uma pré-condição para o acordo de paz alcançado, em princípio, em Belgrado, hoje. "Mas é nossa visão que todos os países deveriam submeter os criminosos de Guerra ao tribunal de Haia", acrescentou ele. "Mas está bastante claro que o reino de Milosevic foi uma tragédia para o povo da Sérvia", continuou o porta-voz, lembrando as várias guerras que incitou com as minorias étnicas que compunham a Iugoslávia e levaram à divisão do país em várias repúblicas independentes. "Há vários passos que precisam ser dados antes de apoioarmos a integração sérvia no resto da Europa, incluindo da ajuda para a reconstrução que estamos dispostos a fornecer, mas não antes de o país buscar um curso democrático".
A posição do governo foi apoiada por vários especialistas. "A Sérvia precisará de uma enorme ajuda de fora e isso colocará enorme pressão sobre os iugoslavos para arranjar outro governo"
disse Helmut Sonnenfeld, da Fundação Brookings. Ivo Daalder, especialista em Balcãs e ex-assessor do Conselho de Segurança da atual administração acrescentou que o importante agora é a evitar a todo custo que Milosevic tenham qualquer participação na execução das condições para a paz os acordos, como ocorreu nos acordos de Dayton, de 1985, que encerrou a guerra na Bósnia. "Uma vez que entremos lá (em Kosovo) vamos mandar no lugar e não devemos nos preocupar com o que Milosevic pensa".
Daalder disse também que é igualmente importante que a OTAN trate o futuro de Kosovo de uma maneira que não exclua uma opção futura de independência da província. "Livrar-se de Milosevic e democratizar a Sérvia aumenta a perspectiva de os kosovares retornarem ou ficarem na Iugoslávia", afirmou. Sbigniew Brzezinski, que foi assessor de segurança nacional da administração Carter, previu que, depois da guerra, a descoberta de provas sobre o massacre que os sérvios perpetraram em Kosovo ajudará a isolar ainda mais Milosevic.
Asseguradas as condições para a cessação do bombardeio, a questão de Kosovo entrará numa fase diplomática mais complicada, com a busca de legitimação do acordo sobre o pós-guerra no Conselho de Segurança das Nações Unidas, que a OTAN ignorou durante o conflito. A abertura de qualquer possibilidade de independência de Kosovo, nas deliberações do Conselho de Segurança, provocará o veto certo da China e da Rússia.


