Washington, 09 (AE) - A decisão dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Carlos Menem de iniciar já o processo de convergência econômica do Brasil e da Argentina foi bem recebida em Washington. A proposta foi explicada ao Fundo Monetário Internacional (FMI), ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e também ao Congresso e ao Tesouro dos Estados Unidos nos últimos dois dias. O anúncio dos dois presidentes foi feito em Buenos Aires, no exato momento em que o secretário de Planejamento Estratégico da Argentina, Jorge Castro, visitava Washington para falar de outro tema: a dolarização da economia de seu país. A proposta de fazer um "pequeno Maastricht"- uma iniciativa do próprio Cardoso, que surpreendeu a todos - foi vista como uma mudança na política brasileira. E também como um sinal de que a região está empenhada (ainda que apenas no discurso) em defender sua estabilidade, abalada pela crise financeira internacional.
Em seus encontros em Washington, que incluíram também o Federal Reserve (banco central americano), Castro falou da importância da decisão de ambos os países de enfrentarem juntos o maior problema da região: o desequilíbrio fiscal, que torna a econômica vulnerável a qualquer crise externa. Ele lembrou que a União Européia (UE) fez o mesmo, antes de adotar uma moeda comum em janeiro passado.
Antes de a região ser atingida pela crise financeira, que estorou na ásia em 1997, Menem lançou a idéia de criar uma moeda comum para o Mercosul: a união aduaneira, integrada por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai e tendo, como sócios privilegiados
Chile e Bolívia. O governo brasileiro apoiou publicamente, ainda que com pouco entusiasmo e muitas ressalvas. Uma moeda única seria um bom assunto para ser discutido em algumas décadas e depois de superados problemas menos complexos de comércio internacional.
Para Castro - e foi isso que ele explicou em suas conversas em Washington - o importante não é a moeda única em si, mas o ajuste fiscal que os 15 países da UE se obrigaram a fazer para poder lançar o euro. Não fosse o compromisso assumido junto aos demais e a pressão externa, países ricos mas com déficits públicos históricos, como a Itália e a Bélgica, nunca teria acertado suas contas tão rapidamente.
Aliás, os europeus anunciaram o euro num momento de grande incertezas políticas e econômicas: a Alemanha Ocidental estava pagando o preço alto de absorver a Alemanha Oriental, a guerra do Golfo demonstrara a vulnerabilidade da região mesmo após o fim da guerra fria, e o alto desemprego era o tema do momento.
O anúncio em Buenos Aires e as explicações de Castro em Washington coincidiram com um momento em que o mercado americano está olhando para o Brasil com um misto de tranquilidade e desconfiança. Os grandes investidores americanos estão aliviados
ao perceberem que a recuperação brasileira da crise econômica foi mais rápida do que se esperava, mas começam a ficar ansiosos com a liderança política (que só se mobilizou quando a situação era grave e agora não está avançando ao ritmo esperado na aprovação de mais reformas).
Castro explicou que tanto na Argentina quanto no Brasil os Congressos estão discutindo leis de responsabilidade fiscal. E que este é um sinal de que os dois países (assim como seus sócios uruguaios e paraguaios do Mercosul, que também trabalharão para a convergência econômica) estão preocupados em fazer os ajustes necessários. "Ainda que brasileiros e argentinos não cumpram suas promessas, existe a pressão mais eficaz do FMI", disse um diplomata americano. "Mas, de todas as formas, o anúncio dos presidentes não deixa de ser um sinal."

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