Walter Salles não acreditava em premiação do Central do Brasil
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domingo, 21 de março de 1999
Por Marcelo Bernardes 
Los Angeles, 22 (AE) - Amparado por uma campanha milionária da distribuidora Miramax, que investiu em anúncios e lobby o dobro de seu orçamento, a produção italiana "A Vida É Bela" acabou tirando o prêmio de melhor filme estrangeiro da rota de "Central do Brasil".
Sereno e racional desde os primeiros sinais indicadores de uma trajetória internacional de sucesso, que o deixaram em evidência no Festival de Sundance de 98, o diretor Walter Salles sempre duvidou que a Academia lhe daria o prêmio. Passada a temporada americana de prêmios, Salles relaxa e começa a discutir novos projetos. Para Central sobraram 44 prêmios internacionais, mais de US$ 15 milhões de faturamento no mundo inteiro e a revelação do talento de Fernanda Montenegro para platéias estrangeiras. Agência Estado - Como você avalia a vitória de "A Vida É Bela" sobre "Central do Brasil"? Walter Salles - Roberto Benigni virou um fenômeno de massa nos EUA. Por isso vinha mantendo uma certa distância, pois tinha certeza do que estava para acontecer. O fato de Sophia Loren apresentar o prêmio da categoria era um indicativo muito claro do que ocorreria. Há de se aplaudir o feito dele e saber perder. É evidente que fico triste pelo fato de o talento de Fernanda Montenegro não ser reconhecido. No meu entender, ela teve uma das melhores atuações do ano. AE - No que pensava quando o nome dos cinco indicados nas duas categorias que "Central do Brasil" disputava começaram a ser anunciados? Salles - No caso do filme estrangeiro, não tinha nenhuma esperança que o resultado fosse outro. Um pouco antes, falei para Vinicius (de Oliveira), que estava sentado a meu lado, que a gente não pode ganhar sempre (risos). Existe uma lição positiva também em aprender a perder. No caso da Fernanda, ainda havia uma esperança no ar pelo fato de o favoritismo de Gwyneth Paltrow e Cate Blanchett dividir os votos. Isso poderia excluí-las, dando chances de Fernanda vencer. Certamente recebi o anúncio com tristeza. AE - Você sempre foi evasivo na hora de emitir qualquer opinião sobre "A Vida É Bela". O que pode dizer agora? Salles - Quero manter a elegância e aplaudir a vitória dele. O Oscar de melhor filme estrangeiro foi conseguido pela excepcional popularidade que o filme conseguiu nas últimas semanas. Um efeito totalmente de mass media. A indústria americana tem um código todo próprio de aplaudir seus filmes. Lamento também o fato de Terrence Malick não ter vencido nem Ian McKellen. Para mim, Fernanda e Ian McKellen tiveram as melhores atuações do ano. AE - O que disse a Fernanda depois da vitória de Gwyneth Paltrow? Salles - Não estávamos próximos. Fernanda recebeu o fato com o distanciamento peculiar a uma grande dama. AE - Quais foram os melhores momentos da entrega do Oscar para você? Salles - Foi a homenagem tardia a Stanley Kubrick, que somente a teve por causa da sua morte. Kubrick fez filmes maravilhosos e só ganhou um Oscar de efeitos especiais por "2001 - Uma Odisséia no Espaço". Do meu ponto de vista, houve um momento muito discutível, que foi o do prêmio para Elia Kazan. AE - Como você reagiu ao prêmio? Salles - Saí do auditório, assim como Geoffrey Rush, Nina Foch, Anjelica Huston e vários roteiristas. Fomos para o bar da entrada do teatro e lá ficamos até ele receber o prêmio. AE - Obviamente, "Central do Brasil" vai receber outros prêmios, além disso está concorrendo ao Oscar inglês, o Bafta, na categoria de filme estrangeiro. Mas, em se tratando do mercado americano, o Oscar encerra um grande ciclo para seu filme. Como você avalia esse período? Salles - O filme foi muito bem-aceito pela crítica americana. A maioria das associações de críticos nos brindou com prêmios. Chegamos à festa do Oscar com 44 prêmios, três deles recém-recebidos no Festival de Cartagena. É bom lembrar que nunca ganhamos um prêmio dado pela indústria cinematográfica, que quase sempre privilegia os filmes em termos quantitativos. E não falo só da indústria americana. Perdemos o Cesar, que é o Oscar da França, e não teremos chances de ganhar o Bafta, o Oscar da Inglaterra. Mas há uma lição, a de que um diálogo foi travado internacionalmente. Esse sucesso permitiu ao filme ter grande repercussão na Europa. Desejo sorte aos jovens cineastas brasileiros que finalizam seus filmes. Espero que eles tenham a chance de vir a concorrer ao Oscar também e consigam o feito que Central não conquistou.


