Londres, 16 (AE-REUTERS) - O vulcão político que entrou em erupção em Bruxelas pode lançar destroços através do Canal da Mancha e complicar os planos do primeiro-ministro Tony Blair de conquistar apoio, na Grã-Bretanha, para relações mais estreitas com a Europa e para a adesão à moeda única.
A primeira reação de Blair à renúncia da Comissão Européia (CE) foi pedir uma reforma radical em Bruxelas, dizendo que a edificação da Europa só pode ter êxito com instituições que se aproximem mais do povo.
Mas o parlamentar conservador Bill Cash, importante adversário da adesão britânica à moeda européia, o euro, disse que o trabalho de Blair para convencer os eleitores das vantagens de uma integração maior vai sem dúvida ficar mais difícil.
"Esta é uma viagem sem volta para a integração política e para uma Europa não-democrática", declarou Cash à Reuters. Acrescentou que, com as notícias vindas de Bruxelas, o leitor médio da imprensa popular britânica vê confirmada sua opinião negativa sobre a Europa.
"A UE (União Européia) está em colapso e no caos", disse Cash. "Foi retirado poder em excesso dos parlamentos nacionais." Defendeu a renegociação dos Tratados de Maastricht e de Amsterdã e um total expurgo na comissão. "Todo o pessoal precisa sair", opinou.
Outro eurocético conservador, sir Michael Spicer, disse que a erupção em Bruxelas era previsível porque todas as instituições européias, incluindo a CE, o Banco Central Europeu e a Corte de Justiça não precisam prestar contas de seus atos. "Só podia acontecer", comentou Spicer. "Vai ser naturalmente mais difícil para Blair promover a adesão ao euro na Grã-Bretanha."
Lorde (David) Owen, ex-ministro das Relações Exteriores no governo trabalhista que é a favor da adesão à Europa, mas contrário à moeda única, disse que a turbulência precisa "marcar o fim da velha Europa com seus sigilos, sua falta de democracia e suas tendências integracionistas". Em declaração distribuída pelo New Europe - grupo recém-formado de centristas que se opõem ao abandono da libra -, Owen disse que quer ver uma Europa em que a Grã-Bretanha possa ficar fora da moeda única sem sofrer intermináveis pressões para que entre.
Andrew Duff, do instituto de pesquisa Federal Trust, pró- integração, declarou a jornalistas que a renúncia da CE pode dificultar mais a vida de Blair a curto prazo, mas também provou que aumentam a força da democracia na UE e o poder do Parlamento Europeu.
"Os críticos e descrentes que receiam o governo exercido por uma autocracia estrangeira enganam-se", comentou Duff. O episódio "revelou a realidade da União Européia com grande clareza e dramaticidade. Considero-o uma coisa benéfica que precisamos aproveitar."
Duff acrescentou que a derrubada da CE pelo Parlamento mostrou que a Europa avança rumo ao melhor controle do executivo pelo legislativo, nos moldes dos Estados Unidos. "Os americanos não vão entender que esta crise é um avanço para a democracia", disse Duff. Podem julgá-la mais desestabilizadora do que é na realidade."
Blair tem-se mostrado com frequência desencantado com o sistema de funcionamento da UE e pede reformas abertamente. Mas se nega a endossar a transferência de mais poder para o Parlamento Europeu, preferindo que as rédeas do poder continuem nas mãos dos governos membros.
O governo de Blair mostra cautela em relação ao euro e a outras vias da integração européia e união política, deixando frustrados os entusiastas segundo os quais ele não assume uma clara liderança.
Duff disse que Blair mostrou cautela excessiva porque não se manifestou claramente contra proprietários de jornais antieuropeus como Rupert Murdoch e Conrad Black, cujas manchetes fazem enérgica campanha contra a moeda única.
Analistas disseram que o pior resultado para Blair seria uma reforma superficial que "deixasse tudo como está" em Bruxelas e fizesse pouca ou nenhuma mudança na estrutura da Comissão Européia. Isto daria novos argumentos ao Partido Conservador, de oposição, e dificultaria para Blair a vitória no plebiscito que ele prometeu convocar antes de levar a Grã-Bretanha para a moeda única.

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