Brasília, 09 (AE) - Em discurso de despedida, com 26 páginas lidas durante uma hora e 20 minutos, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco afirmou que a defesa do real "não falhou, nem caiu vítima de um irresistível ataque especulativo". Para ele, a defesa da moeda "foi abandonada porque muitas vozes influentes acreditavam que havia uma maneira de fazer as coisas mais fáceis".
Franco disse que a saída fácil - a desvalorização cambial - foi defendida pela oposição e por ministros do governo
numa referência velada aos ministros da Saúde, José Serra, da Ciência e Tecnologia, Bresser Pereira, da Educação, Paulo Renato
além do então ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros.
"A desvalorização não trouxe ainda os benefícios esperados pelos seus defensores e se tornou, ela própria, um problema ainda maior do que o que tínhamos antes", disse Franco.
Mesmo ao lado do ministro da Fazenda, Pedro Malan, e do novo presidente do BC, Armínio Fraga, Franco não escondeu seu pessimismo com a opção de política cambial feita pelo presidente Fernando Henrique Cardoso: "A tese da saída fácil estava errada e deve ficar claro que os obstáculos ao crescimento - na forma do desequilíbrio fiscal e das reformas incompletas - continuam exatamente onde estavam, a maior parte deles do mesmo tamanho ou maiores".
A defesa da desvalorização do real, na opinião de Franco
foi feita por "uma coalizão de poderosas opiniões que sustentava, já de algum tempo, que uma alteração na política cambial permitiria uma redução mais agressiva dos juros e mais crescimento, independentemente da situação fiscal".
Como resultado da ação dessa "coalização", Franco considera que a defesa do real "foi desmontada sem sangue, no plano da persuasão". "O presidente da República, a quem cabia decidir, tomou a sua decisão e jamais seria minha intenção servir como embaraço a esta reorientação das políticas de juros e câmbio, que se tornou natural, diante do desejo do presidente da República."
Na avaliação feita por Franco, ao fazer a mudança cambial, o governo perdeu muito em credibilidade, principalmente dentro do País, dentre os que mais acreditavam na equipe econômica . "Acho que perdemos uma parte ponderável do Contrato Social que construímos com tanto cuidado ao longo desses anos, que tinha na estabilidade da moeda, e das regras da economia, o seu principal elemento", criticou ele, no tom crítico prometido.
Inflação - O cenário econômico brasileiro para 1999 não melhorou com a desvalorização cambial. "Quem se debruçar sobre as perspectivas para 1999 não pode deixar de ter dúvidas sobre o futuro", disse ele no discurso. "Dúvidas possivelmente maiores que as que tínhamos".
Franco demonstrou particular preocupação com os efeitos inflacionários da desvalorização cambial. "Será necessário um imenso esforço do governo para resistir às tentativas na direção da reindexação e mobilizar a população no sentido de rejeitar as práticas do tempo da inflação", alertou.
"Se formos bem sucedidos em reduzir os impactos inflacionários das mudanças na política cambial é possível que, ao final de 1999, tenhamos uma desvalorização real na taxa de câmbio em porcentual superior à que teríamos se não tivéssemos alterado a política cambial". Mas, para que isso ocorra, Franco disse que "será necessária extrema firmeza e também muita sabedoria da parte da nova equipe do BC".
O ex-presidente do BC chegou mesmo a fazer projeções sobre a taxa de câmbio e sobre a inflação em 1999 que consta do texto de seu discurso, mas que terminou não lendo durante a solenidade de transmissão de cargo. "Teremos ganhos reais no câmbio relativamente à política anterior para qualquer taxa de inflação acumulada inferior a 40% se o dólar estiver no fim do ano a R$ 1,80 ou para uma inflação inferior a 53% acumulados se o dólar ficarm em R$ 2,00", afirmou.
"Todavia, se as novas políticas vão funcionar ou não, e eu tenho certeza que vão, dependerá de o País ser capaz de enfrentar um velho problema: o desequilíbrio fiscal".
Crítico contumaz da participação estatal no setor financeiro, Franco defendeu abertamente a privatização do Banco do Brasil, baseado no mesmo princípio que recomendou o governo a vender os bancos estaduais.
"Para que o Tesouro (federal ou estadual) não tenha a tentação de usar um banco público para gastar além da conta, é melhor então que não tenha banco".
Apesar dos elogios a seu quase sucessor Francisco Lopes, único ausente à cerimônia, pela criação do Comitê de Política Monetária (Copom), indiretamente Franco criticou a inércia nos momentos mais nervosos que se seguiram à mudança cambial. "No Banco Central nunca faltou operador. Às vezes faltou foi comando", disse em defesa da chefe do Departamento de Reservas Internacionais (Depin), Maria do Socorro de Carvalho.

mockup