Votação do FGTS assusta mercado e derruba bolsa
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quarta-feira, 12 de abril de 2000
Por Cleide Sanchéz Rodríguez e Leandro Modé 
São Paulo, 13 (AE) - O mercado financeiro levou um choque hoje com a possibilidade de o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir favoravelmente aos titulares de contas vinculadas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) na ação que movem contra a Caixa Econômica Federal (CEF). O tamanho do rombo - ainda incerto - fez a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) despencar 5,03%, a segunda maior queda do ano; os juros futuros dispararem e o dólar subir 1,14%, para fechar em R$ 1,7790, o maior nível desde 23 de fevereiro.
"Até agora, as turbulências do mercado financeiro vinham de fora; ninguém esperava que um fator interno pudesse ter tanto impacto nos ativos financeiros", resumiu um operador. Na prática, o mercado vinha acompanhando o julgamento dos recursos da CEF e da Advocacia Geral da União contra as decisões
de instâncias judiciais inferiores, que deram ganho de causa a titulares de contas vinculadas do FGTS. Eles reivindicam que o saldo do FGTS seja corrigido de acordo com os índices de inflação expurgados em diversos planos econômicos.
Operadores acompanhavam os desdobramentos do julgamento e o desempenho do Nasdaq, o índice que reúne as ações de tecnologia no mercado americano. Mas a correlação com a bolsa eletrônica, que tem sido constante desde outubro do ano passado, não se verificou durante a manhã e boa parte da tarde de ontem. ás 12h30, enquanto o Nasdaq apurava alta de 140 pontos, a Bovespa caía cerca de 1%. "Sinal de que o julgamento da questão do FGTS já preocupava o mercado desde o início do dia", comentou o operador de um banco estrangeiro.
A situação piorou após as 16 horas, quando profissionais do mercado interpretaram de forma equivocada uma declaração do relator do processo, ministro Moreira Alves, veiculada por agências de notícias. O ministro dizia entender que não cabe ao STF julgar os expurgos referentes aos planos econômicos Collor 1 e Verão. "Mas isso não significa que ele se abstém de votar", explica o jurista Ives Gandra Martins. "Tanto que logo depois, ele anunciou voto do mérito a favor do recurso da CEF."
Quando o voto de Alves pró-CEF ficou claro, uma hora depois, já não havia mais tempo para reação, pois o mercado financeiro encerra suas operações no Brasil às 17 horas.
"O mercado não avaliou nada das decisões tomadas; a primeira coisa que fez foi vender papel", disse um operador. Depois que o pregão terminou, afirmou um executivo, durante as conversas com os consultores, foi ficando a impressão de que o rombo talvez não seja grande.
Para amanhã, os holofotes do voltam-se outra vez para o mercado acionário norte-americano, pois o julgamento do STF foi adiado e só deve ser retomado daqui a um mês. "Nesse período, o mercado ficará em compasso de espera, sem tendência definida", disse outro operador.
No mercado de câmbio, as mesas de operação foram tomadas por uma onda de nervosismo, que fez a cotação do dólar chegar à máxima de R$ 1,785 no fim da tarde. A moeda encerrou o dia cotada a R$ 1,779, em alta de 1,14%, maior preço de fechamento desde 23 de fevereiro. Segundo operadores, a lista dos fatores que geraram a pressão sobre o dólar foi desde fluxo negativo até o cenário externo, passando por preocupação com questões domésticas. "Hoje, o dólar subiu com consistência e não apenas por movimentos especulativos", afirma um profissional.
Analistas afirmaram que o principal motivador da alta de hoje teria sido uma operação de compra de dólares. O volume estaria entre US$ 400 milhões e US$ 500 milhões. A informação que circulou foi de que esse montante teria sido adquirido pelo Tesouro Nacional para fazer caixa, a fim de cumprir compromissos externos que vencem em abril. A operação de compra teria envolvido dois bancos: um privado e o Banco do Brasil. A assessoria de imprensa do BB, questionada sobre o comentário, afirmou que a atuação da instituição no mercado hoje "foi de absoluta normalidade, atendendo apenas a seus clientes".


