''Depois de a filha se ter retirado, Cipriano Algor abriu a porta que dava para fora e olhou na direcção da amoreira-preta. A moinha persistente continuava a molinhar e não se percebia sinal de vida dentro da casota. Ainda lá estará, perguntou-se o oleiro. Deu a si mesmo uma falsa razão para não ir ver, era o que faltava, molhar-me por causa de um cão vadio [...]''
Mal sabia Cipriano Algor que faria mais do que isso. Não demoraria muito e o oleiro estaria disposto a aceitar de braços abertos a interferência do cão Achado em sua vida - uma situação retratada por José Saramago em ''A Caverna'' que acontece todos os dias, em todos os lugares, bastando apenas que um cão e um novo dono se encontrem. Mas o melhor é que não apenas o dono pode usufruir os benefícios da convivência com o animal. Marcada pelo afeto e confiança, essa relação pode se estender a outras pessoas. Trabalhos voluntários realizados no Brasil têm mostrado que animais (especialmente o cão) melhoram a comunicação entre as pessoas, auxiliam no aprendizado, aumentam a confiança e podem até atuar beneficamente na saúde do ser humano.
Em setembro, a 9ª Conferência Internacional sobre Interações Homem-Animal, sediada no Rio de Janeiro, mostrou o que os animais andam fazendo de bom para o homem, destacando, entre outros assuntos, as terapias assistidas por animais (ou AAT, sigla de animal assistance therapy) e projetos de educação para crianças em idade escolar. O evento, que contou com especialistas de 25 países, foi organizado pela Associação Francesa pela Informação e Pesquisa sobre Animais de Companhia (Afirac) e pela Arca Brasil - Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal, ambas integrantes da Associação Internacional das Organizações de Interação Homem-Animal (Iahaio).
Segundo Dennis Turner, professor do curso de medicina veterinária da Universidade de Zurique e presidente da Iahaio, um em cada quatro psiquiatras e psicoterapeutas no mundo utiliza, de alguma forma, animais no processo terapêutico. ''Mas essa interação homem-animal ainda é uma realidade muito incipiente no Brasil'', considera Marco Ciampi, presidente da Arca Brasil.
Ciampi explica que o status do animal no País ainda se mantém no âmbito da saúde pública, com especial atenção para a proliferação de doenças, e isso dificulta pensar a convivência entre homens, cães e gatos de uma outra forma. No entanto, ele ressalva que o País está no caminho certo, começando a se organizar quanto a essa questão. ''O Brasil, que já vinha encontrando soluções para os animais abandonados, já aponta para um futuro em que haja benefício mútuo dessa relação, uma relação sadia.''
Ciente da realidade brasileira, e nem por isso menos engajado, Jerson Dotti resolveu estender os efeitos benéficos da convivência com seus oito cães aos idosos da Casa dos Velhinhos de Ondina Lobo, na zona sul de São Paulo. ''Sabemos que o governo tem prioridades que não são essas'', diz. Assessor governamental de uma multinacional, Dotti criou e coordena o Projeto Cão do Idoso desde agosto do ano passado. Hoje, a iniciativa conta com cerca de 30 voluntários.
Para poder participar do projeto, o cão deve ter entre um e sete anos, estar com a saúde totalmente em dia, obedecer a alguns comandos básicos e passar no ''test-drive'' de comportamento, aplicado pelo próprio coordenador, que inclui ficar pacientemente no colo, aceitar afagos, leves puxadas de rabo e alguns abraços mais exaltados, sem esboçar reações que coloquem em risco a saúde dos idosos. ''Eles têm as defesas imunológicas muito baixas'', justifica Dotti.
Antes da visita, que costuma acontecer nos finais de semana, todos se aprontam - principalmente os cães. ''Tem um que vem até de gravata'', conta o caminhoneiro aposentado Rubens de Assis, 76 anos, morador do Ondina Lobo há 13. ''Eu não tenho visão, mas todos dizem que é um mais bonito do que o outro.''
Assis, que não enxerga há 16 anos, vítima de glaucoma, costuma aproveitar a visita dos cães ao lado da noiva, Oliva Malasca, de 73 anos. Com dificuldade nos movimentos devido a um derrame, Oliva, uma gaúcha da zona rural, diz que adora brincar com os animais, inclusive os maiores. ''Algumas casas na vizinhança têm cachorros bravos, mas esses aqui são muito bons, fazem amizade com qualquer pessoa.''
Já Ana Drosma Pikelis, há 7 anos na casa, tem preferência pelos cães pequenos. ''Gosto de colocá-los no colo.'' E já elegeu seu predileto: ''Tem um foxdale de que gosto muito''.
Tales Pikelis, irmão de Ana, gosta de se lembrar dos três cães e quatro gatos que teve - sem contar os animais, digamos, menos comuns. ''No Mato Grosso, lá perto de Campo Grande, eu tinha uma ema de estimação. Mas um sujeito se encantou por ela e eu a dei de presente'', relata, com a irmã ao lado para comprovar a veracidade da história.
Hoje, além dos cães, o ex-motorista de veículos pesados convive com dois gatos que fizeram do Ondina Lobo sua moradia. ''É uma beleza de amizade. Até dou um tira-gosto para eles na hora do jornal da TV.''
Apesar do nome, o projeto de Dotti não se limita aos idosos. Desde maio deste ano, os cães visitam também uma casa que abriga 15 crianças vítimas de violência. Nesse caso, salienta o coordenador, a proposta é bem diferente. ''É uma brincadeira séria, para levar a criança a relaxar, a confiar e não ter medo do adulto'', explica.
A médica veterinária e Phd em psicologia Hannelore Fuchs ressalta essa ''brincadeira séria'' mediada por animais ativa a liberação de endorfina no organismo, causando uma sensação de bem-estar. ''Você tem uma resposta muito positiva do organismo'', ressalta.

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