Em seus 15 anos de vida, a estudante Narriman Dalgiso nunca presenciou uma cena de violência contra a mulher. Não a violência física, pelo menos. ''Na minha família, muitas vezes já vi brigas em razão de os homens se acharem donos das esposas. Isso gerava uma série de discussões'', lembra. Segundo dados da Secretaria Municipal da Mulher, o crime ao qual a adolescente se refere, a pressão psicológica, ocupa hoje o primeiro lugar (65% dos casos) no ranking de denúncias feitas no Centro de Atendimento à Mulher (CAM).
Observar as vítimas serem agredidas e não procurarem ajuda por vergonha ou mero desconhecimento motivou a estudante a integrar o grupo de ''promotoras da cidadania'', composto por 46 mulheres que percorrem bairros das zonas norte e leste de Londrina em defesa dos direitos das mulheres que sofrem violência doméstica e sexual. Já na terceira fase da capacitação (durante a qual foram feitas dinâmicas, palestras e vídeo temáticos), a equipe foi conhecer na prática os locais de atendimento que recomendam para as vítimas.
A visita passou pelo Conselho Tutelar, CAM e pela secretaria da mulher, de onde elas levaram ao prefeito Nedson Micheleti (PT) a proposta de ampliar o atendimento, em vigor desde o início do ano, também às zonas sul e oeste da cidade.
Para a secretária municipal da Mulher, Maria José Barbosa, a atuação das promotoras da cidadania acaba ''multiplicando as atividades'' do órgão público. ''Conhecendo as agredidas, elas saberão para onde encaminhar cada caso, bem como informá-las e orientá-las. É prevenção e combate'', define, lembrando que o registro criminal dos casos é feito na Delegacia da Mulher. No CAM, o trabalho é desenvolvido com assistentes sociais e psicólogas e, se necessário, até orientação jurídica através dos escritórios de Aplicação das universidades Estadual de Londrina (UEL) e Norte do Paraná (Unopar). Além da violência emocional, o órgão recebe ainda casos de violência física (34%) e sexual (2%).
Apesar da desinformação existente, Maria José faz um alerta: o principal obstáculo para que aumente o número de denúncias está dentro da própria casa da agredida. ''Em 80% dos casos, é o próprio marido, namorado ou amásio quem bate, ameaça, abusa sexualmente. Isso chama a atenção, pois se trata de alguém que diz ter amor; alguém, em suma, em quem se confia''. Os 200 casos atendidos pelo CAM mensalmente representam apenas um terço das vítimas. ''A mulher demora, em média, nove anos para fazer a denúncia. Com as promotoras, esperamos ampliar esse índice, levando atendimento a quem quer que precise''.

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