Voltam a acusar Mitterrand de anti-semitismo Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 26 (AE) - Mesmo depois de morto, o presidente François Mitterrand provoca uma nova batalha. E o promotor desta guerra é o professor Jean dOrmesson, excelente escritor e emérito representante do jornal de direita Le Figaro. Jean dOrmesson acaba de publicar Le Rapport Gabriel (Editora Gallimard) - uma espécie de livro de "memórias". Um dos capítulos é consagrado a uma entrevista concedida por Mitterrand a dOrmesson no dia 27 de maio de 1995, ou seja, no dia em que Mitterrand, gravemente doente, cedeu seu lugar a Jacques Chirac.
A entrevista foi feita a pedido de Mitterrand. E, no final da entrevista, dOrmesson se atreve a interrogar o presidente a respeito da cumplicidade que alguns lhe atribuiam em relação ao governo "colaboracionaista" do marechal Pétain, entre 1940 e 1945, e a respeito da suposta indulgência demonstrada por Mitterrand em relação a alguns "Vychistas anti-semitas", como um tal René Bousquet.
"Mitterrand ouve calmamente. E depois me olha por longo tempo: Aí você constata a influência do lobby judaico na França", disse ele. E seguiu-se um grande silêncio".
Pode-se avaliar a gravidade desta frase: se ela foi efetivamente pronunciada, seria a prova de que o jovem Mitterrand de 1940, próximo dos "colaboracionistas" e dos anti-semitas, não é uma lenda. Pior ainda: às vésperas de sua morte, Mitterrand teria convocado dOrmesson para destilar uma última vez sua desconfiança contra os judeus.
Desde a manhã de hoje, Paris está em ebulição. Os comentários se entrecruzam. Mesmo no campo da esquerda, na "família" de Mitterrand, alguns aprovam dOrmesson por ter publicado esta confidência e não duvidam que estas idéias foram bem expressas.
O ex-assessor especial de Mitterrand, Jacques Attali, que é judeu, afirmou que às vezes lhe foram apresentadas essas idéias de seu chefe. "Isso coloca em perspectiva a distância que tomei de Mitterrand".
Em contrapartida, muitos ficaram indignados pela maneira como dOrmesson (personagem extremamente simpático e, ao que parece, honesto) atribui a Mitterrand pensamentos que não podem ser comprovados. A mais indignada é a filha de Mitterrand, Mazarine Pingeot.
"Deverei suportar por muito tempo a difamação e o ódio?" pergunta Mazarine. "Aguentarei tudo isso no caso de um homem morto? Um homem que me criou na tolerância e na liberdade, de quem aprendi os valores humanistas.... Será que ele traiu uma só vez seus compromisssos para com a comunidade judaica, ou qualquer outra comunidade regularmente ameaçada? Ao que me parece, jamais o vi enfraquecer seu combate contra as discriminações e particularmente contra o racismo e o anti-semitismo..."
O escândalo é tão grande que o primeiro-ministro interveio. Isso é interessante porque o primeiro-ministro, Lionel Jospin, é ao mesmo tempo um homem honrado e, entre os ex-ministros de Mitterrand, um dos que mais rapidamente se distanciaram do presidente falecido.
Numa breve declaração, Lionel Jospin, depois de revelar que frequentes vezes discutiu com Mitterrand sobre esses problemas, sobre o problema judaico, conclui sem nenhuma ressalva que, "em suas análises como em suas emoções, o anti-semitismo era alheio a François Mitterrand". A própria sobriedade deste texto lhe confere uma eloquência e um grande poder de persuasão. Mas, sem dúvida, o assunto está apenas começando a ser discutido.





