São Paulo, 25 (AE) - Lágrimas, solidariedade dos colegas e beijos para a população. A volta do vereador Vicente Viscome à Câmara Municipal transformou-se em um evento, hoje - dia em que foi instaurada ação penal por crimes de formação de quadrilha e concussão (corrupção de funcionário público) contra Viscome, sua namorada e ex-assessora, Tânia de Paula, e outros sete funcionários municipais.
Preso no 29.º Distrito Policial, desde 31 de março, sob a acusação de chefiar a Máfia dos Fiscais da Administração Regional da Penha, Viscome compareceu à sessão, às 15 horas, escoltado por policiais militares. O pedido foi apresentado pelo advogado Ademar Gomes para evitar que o vereador perdesse o mandado por faltas - o limite é de 42 faltas consecutivas.
A autorização foi dada pelo juiz Maurício Lemos Porto Alves, do Departamento de Inquéritos Policiais. A partir de agora, mesmo com o pedido de prisão preventiva mantido, Viscome poderá comparecer às sessões do Legislativo às terças, quartas e quintas-feiras.
A chegada do vereador hoje à Câmara ocorreu por volta das 9 horas, para assistir ao depoimento do secretário de Negócios Jurídicos, Edvaldo Brito, na Comissão Processante, que analisa o pedido de cassação do seu mandato.
Já na garagem do prédio, Viscome foi abraçado por funcionários. A solidariedade encheu seus olhos de lágrimas. Depois do depoimento de Brito, amparado por policiais e assessores, o vereador foi para seu gabinete, onde almoçou. Às 15h17, ele entrou no elevador privativo dos parlamentares e foi para o plenário. Três minutos depois, assinou a folha de presença, que fica atrás da Mesa Diretora da Câmara.
Quando entrou no plenário, conversou rapidamente com a vereadora Aldaíza Sposati (PT) e fez questão de cumprimentar o presidente da Casa, Armando Mellão. Em seguida, deu um beijo no rosto do vereador Emilio Meneghini (PPB).
Aos jornalistas, entre as afirmações de que não era "mafioso" e estava sendo julgado politicamente e não por fatos
fez um apelo: "Vocês têm de mostrar a minha inocência." Instantes depois, recebeu mais um gesto de solidariedade. O vereador José Izar (PFL) - indiciado pela polícia por formação de quadrilha e peculato - foi até Viscome e lhe deu um abraço.
Ao ser perguntado se o abraço era uma prova de amizade, Viscome respondeu: "É, sim." O vereador contou que ficou amigo dos cerca de 60 presos que estão no xadrez do 29.º DP. Por ser o mais velho de todos, Viscome disse que os está "aconselhando".
"Eu levanto cedo, às 7 horas, varro o pátio, pinto as celas, sirvo o café, o almoço e o jantar para todos eles", disse. "E estou dando conselho aos mais jovens para ver se abandonam aquela vida." Segundo o vereador, depois disso muitos passaram até a arrumar as próprias celas. "E não jogam mais as bitucas de cigarro no chão."
Reeleição - Viscome, que está sem legenda partidária, afirmou hoje já ter convite para filiar-se a cinco partidos. "Se eu não for cassado pela Câmara, vou decidir a questão partidária e acho que serei reeleito com cerca de 60 mil votos"
afirmou, sem revelar o nome dos partidos que o teriam convidado.
Viscome foi reeleito com 30 mil votos em 1996. Quando a prisão preventiva foi decretada, a Executiva Estadual do PPB o expulsou do partido - decisão que provocou divergências internas. "O PPB me expulsou antes de eu ser julgado, então vou decidir essa questão depois que esse momento passar", afirmou.
Depois das entrevistas, o vereador leu no plenário uma nota oficial na qual reafirma sua inocência. Os demais parlamentares acreditam que a intenção da nota foi sensibilizá-los para conseguir uma posição favorável no momento em que o relatório da Comissão Processante for colocado em votação.
Na nota Viscome atacou a imprensa. Segundo ele, a "imprensa, que é tão rigorosa, rápida e eficiente para arrastar na lama o nome de vereadores desta Casa, não foi atrás de um único nome dos donos desses bancos (que não pagaram Imposto de Renda no ano passado), em busca de explicações."
Depois do pronunciamento, Viscome recebeu alguns poucos aplausos de um grupo de pessoas que estavam na galeria. O vereador Jooji Hato (PMDB), que caminhava em direção ao microfone, e Mário Dias (PPB), que ia em direção à Mesa Diretora
o cumprimentaram.
O vereador saiu do plenário para cumprimentar os seus três filhos Luís, de 22 anos, Daniel, de 19, e Vicente Júnior, de 23. Os quatro abraçaram-se e choraram. A festa para Viscome ficou completa com uma manifestação de solidariedade feita por amigos e eleitores na frente da Câmara. A mais entusiasmada era a mulher do vereador, Dina Viscome, de 49 anos. Ao lado de uma banca de laranjas, montada por atores, ela sambou e comeu a fruta - simbolizando a utilização do marido como bode expiatório.
Para comandar o apoio ao marido, Dina disse ter esquecido as declarações de amor feitas por Tânia de Paula. "Sei separar muito bem o homem do político." Os manifestantes seguravam faixas com inscrições "Queremos nosso vereador de volta" e "Não pela cassação de Viscome". Para convencer os demais vereadores do trabalho social de Viscome, até mesmo ambulâncias - com paciente dentro - foram levadas para a Câmara.
"O vereador ajudou a levar minha filha três vezes para o hospital", contou Cleusa Vieira Lopes, sentada numa maca ao lado da filha Tatiana, de 14 anos, que tem paralisia cerebral. Cleusa disse que recebeu uma carta do gabinete do Viscome solicitando sua presença. "Sei das acusações contra ele, mas vim."
Ao som da música de campanha - Em Vicente Viscome a Gente pode Confiar - o vereador foi ovacionado e mandou beijos para cerca de 80 pessoas, quando surgiu na janela. Muita gente que passava não acreditou. "Mas ele não estava preso?", admirou-se a balconista Fátima Ribeiro. "É uma vergonha aplaudir esse sujeito", protestou o comerciante Aguiar Melo, de 70 anos. "Para mim, lugar de ladrão é na cadeia."

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