Davos, Suíça, 27 (AE) - O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, encontrará no Fórum Econômico Mundial um ambiente muito mais otimista que o do ano passado e, principalmente, muito mais confortável para um representante do governo brasileiro. Há um ano, o governo estava trocando o presidente do BC pela segunda vez em duas semanas e sua imagem internacional dificilmente poderia ser pior. "O real derreteu" era uma frase frequênte em Davos, onde se reúnem anualmente mais de 2 mil empresários, políticos e técnicos de todo o mundo.
Num jantar para um número restrito de convidados, um importante funcionário do governo norte-americano afirmou que a moeda brasileira se havia tornado virtual. Mas a nomeação de Fraga foi saudada por especialistas do mercado financeiro e economistas de reputação internacional, como Charles Dallara, diretor do Instituto de Economia Internacional.
Fraga chega a Davos com uma agenda carregada. Deverá participar de pelo menos duas sessões e encontrar-se com o vice-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Stanley Fischer, empresários e representantes de instituições oficiais.
O Brasil foi apontado como a bola da vez há dois anos, na reunião do Forum, pelo economista Kenneth Courtis, então responsável pela secção asiática do Deutsche Bank. Há um ano, confirmada a previsão, ele se comportou discretamente, evitando tripudiar. Neste ano, Courtis se mostra otimista sobre a maior parte das economias. Previu um crescimento mundial entre 4% e 4 5%. Seu nome ainda consta do programa como funcionário do Deutsche Bank, mas hoje se anunciou sua transferência para a norte-americana Goldman Sachs, como responsável, também lá, pela área da ásia Pacífico, incluindo o Japão.
Neste ano, Courtis está pessimista sobre a economia japonesa.Diz que falta completar o ajuste do setor bancário, o governo já aplicou muito dinheiro no esforço de estimular economia e terá de recorrer, brevemente, a um afrouxamento da política monetária. Fora do Japão, as perspectivas mundiais lhe parecem boas. Na melhor hipótese, haverá crescimento também para as economias emergentes. Se a economia mundial crescer menos - algo em torno de 2% -, economias nível médio de valor agregado (como a brasileira) terão maior dificuldade para aproveitar as chances. Na pior hipótese, sem crescimento, estarão recriadas, para as economias emergentes, as condições de crise observadas nos últimos anos.
A diretora-gerente da Goldman Sachs, Abby Cohen, foi ainda mais abertamente otimista, lembrando que essa foi a posição de sua empresa durante os anos 90, mesmo quando os indicadores da economia norte-americana eram preocupantes e outros investidores se mostravam receosos. Segundo Aby Cohen, os preços das ações, especialmente das empresas de tecnologia avançada, estão adequados e poderão sustentar-se. A rentabilidade das empresas, de acordo com sua avaliação, continuará elevada.
Para o novo economista de Goldman Sachs, é preciso dar atenção a problemas de outra ordem, como parecem ter indicado os manifestantes nas ruas de Seattle na última reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O economista Paul Krugman, do Instituto de Tecnologia de Massachussetts, acentuou, horas depois, o risco de recuos políticos no quadro da globalização. Ele tem discutido esse tema em vários artigos, desde antes do encontro da OMC em Seattle. Krugman participou, ao anoitecer, da cerimônia inaugural da reunião, em companhia de personalidades de outras áreas, como o escritor Umberto Eco. O público foi convidado a selecionar os mais importantes problemas das próximas décadas, depois do pronunciamento dos debatedores. As três questões consideradas mais prementes foram a mudança climática, o fim da ética tradicional e a ineficiência do sistema internacional, com 20,3%
15,7% e 15,1% dos votos, respectivamente.
O primeiro dia de atividade do Forum foi tranquilo. Só apareceram três manifestantes, pouco antes das 14h30. Alinharam-se junto da cerca, perto da entrada do prédio de congressos, desdobraram uma bandeira e cantaram uma canção de protesto. Na bandeira estava escrito: No mundo há o bastante para todos, mas não para quem tudo quer. Manifestações mais expressivas estão previstas para sábado, quando o presidente Clinton estará em Davos.

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