Volta de ex-rebeldes inquieta população de Serra Leoa
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quarta-feira, 21 de julho de 1999
Por Lansana Fofana, da IPS (assinatura obrigatória) 
Freetown (AE-IPS) - A intranquilidade se instalou na capital de Serra Leoa duas semanas após a assinatura do acordo de paz entre o governo e os insurgentes, com a chegada dos primeiros ex-combatentes rebeldes responsáveis por atrocidades em Freetown há apenas seis meses. O acordo firmado em Lomé estipula que o desarmamento e a reintegração social dos rebeldes começará no início de agosto. "Não podemos aceitar isso assim, já que se supunha que os rebeldes entregariam suas armas antes de voltarem à sociedade", declarou o líder comunitário de Calaba, um povoado no leste do país. "Sinceramente, não podemos acreditar neles. Antes que seja permitido sua volta à cidade, eles devem se desarmar", sustentou.
Os funcionários da Missão Observadora das Nações Unidas em Serra Leoa (UNOMSIL) e da ECOMOG, a força de manutenção da paz na áfrica ocidental, também manifestaram inquietação ante a chegada "não oficial" dos ex-rebeldes à cidade. "Estamos muito preocupados com isso porque supúnhamos que os rebeldes esperariam o cumprimento dos programas de desmilitarização e desarmamento em 18 de agosto", declarou o porta-voz da ECOMOG, coronel Chris Olukolade. O alto comando da ECOMOG ordenou a seus 14 mil soldados que se mantenham em "alerta vermelho" e "não se distraiam neste período crítico". A ECOMOG se propõe a evitar que se repita um incidente ocorrido em janeiro, quando as forças rebeldes invadiram Freetown e mataram 4 mil civis, além de mutilar centenas deles, e destruíram mais de 2.500 casas residênciais e edifícios públicos.
O conflito em Serra Leoa começou em 1991 quando o ex-comandante do exército, Foday Sankoh, agora líder da Frente Revolucionária Unida (RUF), iniciou uma guerrilha para derrubar o então presidente Joseph Momoh. Desde então calcula-se que morreram mais de 50 mil pessoas, que os rebeldes mutilaram cerca de 1.000 civis e que quase 25% dos 4,5 milhões de habitantes se refugiaram em países vizinhos. A paz foi recuperada no dia 7, quando negociações com a mediação do presidente do Togo, Gnassinege Eyadema, terminaram com a assinatura de um cessar-fogo e um acordo de poder compartilhado entre os rebeldes e o governo. O acordo de Lomé deixou Sankoh a cargo do ouro e do diamante, as principais fontes de renda do país. O pacto também anulou a pena de morte de Sankoh, condenado em 1997 por traição, e seu movimento rebelde tem agora permissão para se converter em um partido político. O proposto governo de unidade nacional inclui a entrega de várias empresas públicas aos ex-insurgentes.
O presidente de Serra Leoa, Ahmed Tejan Kabbah, declarou
logo após firmar o acordo de paz, que todos os combatentes da RUF "serão anistiados, não serão perseguidos e terão oportunidades iguais (às do atual governo) de servir à comunidade". Kabbah anunciou também uma anistia para mais de 20 civis e colaboradores militares do extinto Conselho Revolucionário das Forças Armadas, que deram um golpe contra seu governo em maio de 1997 e governaram o país durante nove meses. "O governo está preocupado com a chegada dos rebeldes à cidade, já que não estava planejado" que assim fosse, declarou o ministro da Informação, Julius Spencer. "Gostaríamos que eles viessem para a cidade, mas devem fazê-lo de forma ordenada", explicou Spencer.
No entanto, os rebeldes que chegam a Freetown comentam que não podem continuar vivendo no bosque, já que esta é a época das chuvas e ali passam fome e não têm medicamentos. "Estamos cansados de viver no bosque e de lutar. Desta vez queremos a paz
e gostaríamos que a população ficasse tranquila já que os dias de mutilação e de matanças terminaram", disse um jovem soldado da RUF. O processo de desarmamento e reintegração também está sendo atrapalhado pela resposta lenta de países e organismos doadores, que ainda não entregaram os fundos necessários. A Comissão Nacional para o Desarmamento, a Desmilitarização e a Reintegração advertiu que, dos 35 milhões de dólares que são necessários para aplicar no acordo de paz, "a comunidade internacional só se comprometeu a doar a metade". "Nossa inquietação se deve ao fato de que, quanto mais tempo levar (o processo de desarmamento e reintegração), mais perigosa será a situação", explicou um funcionário da Comissão. Não existem cálculos exatos sobre quantos combatentes há em cada lado do conflito, segundo o funcionário de Reintegração da Organização das Nações Unidas, Sullay Sesay. Cifras não confirmadas indicam que o total de combatentes, entre rebeldes e força do governo, somam 40 mil. "Esperamos que a comunidade internacional nos brinde com fundos para poder iniciar o processo de desarmamento o quanto antes possível, porque se não for assim, a paz estará correndo grave perigo", declarou Spencer.


