Viva os presos
Quatro dias, 86 horas, a rebelião na Penitenciária Central do Estado (Piraquara, região metropolitana de Curitiba) acabou se tornando a mais longa no Paraná. Os mais longos dias terminaram com os amotinados ganhando a promessa de que seriam transferidos para os Estados de Mato Grosso e Rondônia.
Sete agentes penitenciários ficaram o tempo todo como reféns, submetidos a uma série de ameaças físicas e humilhações. Tudo bem? Não, tudo péssimo. Dois secretários de Estado, José Tavares e Carlos Maranhão, respectivamente da Segurança Pública e Justiça, comandavam as negociações, prometendo aquilo que não poderiam prometer isto é, a transferência de amotinados para outros Estados. Não poderiam porque isso não depende da vontade deles e sim dos juízes de execução penal aos quais os processos estão vinculados. Sem contar com o indispensável sim de quem foi convidado a ser, subitamente, anfitrião dos rebeldes. Para completar o quadro da falência, a Polícia Militar vai permanecer mais quinze dias no período fora de controle, onde diretoria, agentes e defensores de teses foram para o buraco.
Não sei se Tavares e Maranhão perceberam, mas as concessões abriram um precedente perigoso. Dizer amém aos rebeldes quer dizer novos motins, novos pedidos de transferência. A filosofia para o cumprimento da pena parece que não existe. Tudo fica ao sabor das vontades e exigências, como se os presos, condenados pelo Estado, pudessem impor normas e, aos agentes do Estado, coubesse apenas a satisfação das vontades. Convenhamos: algo de muito grave está acontecendo no sistema penitenciário montado para punir e recuperar as ovelhas que se desviaram do rebanho, como se o Estado fosse uma espécie de pastor. Agora, a ovelha dirigir o pastor, como assistimos nos últimos dias, é fato aberrante.
No próximo mês de novembro, um ex-diretor da Casa de Detenção de São Paulo, Luiz Camargo Wolfmann, homem com 40 anos de experiência no sistema penitenciário, lançará pela editora WVC o livro Portal do Inferno... mas há esperança, altamente recomendável para quem pretende entender alguma coisa sobre prisões e prisioneiros. Luizão, como Wolfmann é conhecido, faz comparações com o portal da Divina Comédia, de Dante, onde está escrito que quem ali entrar deve deixar do lado de fora qualquer esperança.
Nosso sistema está se aproximando disso: punitivo sem regenerar, permite inversões de disciplina e segurança, como se aos confinados coubesse definir fórmulas e critério. Diz Luizão que quando há rebeliões, as autoridades responsáveis, direta ou indiretamente pela guarda desses homens, sem alternativas, se vêem forçadas a utilizar substitutivos condescendentes para aplacar a fúria dos condenados, concedendo privilégios inspirados em princípios da justiça carcerária, como resgate pela falha do sistema ou simplesmente como solução oportuna. Ou seja: viva os presos, abaixo o regime penitenciário!
Qualquer semelhança com o que aconteceu nos últimos dias no Paraná não é mera coincidência. Virou rotina, porque como diz o autor de Portal do Inferno..., a transferência de alguns presos para outros presídios sempre faz parte dos acordos. Nessas ocasiões, ao serem removidos, não raras vezes funcionários são levados como reféns sob ameaça de armas. O experiente Luizão conta que isso provoca estragos físicos e psicológicos. Tais condutas jamais implicaram medidas disciplinares por fazerem parte do acordo. Em resumo: O Estado não cumpre sua parte e o preso não tem limites nos seus protestos e reivindicações. É isto.
Talvez Tavares e Maranhão acreditem em anjos e arcanjos cumprindo penas. Mas os dois secretários derreteram o conceito de bom comportamento que traduz, no campo formal, as progressões dentro do sistema e as avaliações sobre o ambicionado cessar de periculosidade. O que emergiu, agora, é o conceito que valoriza exatamente o mau comportamento. Claramente o seguinte: o preso considerado bom fica na sua, sem alterações; o preso agressivo, perigoso e ameaçador acaba sendo premiado. Fica onde quer, vai para onde bem entende. Os demais presos assistem e analisam o que vale mais a pena. Ser bonzinho ou ameaçador?
Faça um pequeno esforço e adivinhe o que vai acontecer daqui para frente. Entre a existência de normas e sua efetiva aplicação, existem anos-luz de distância. Fora das grades, a sociedade, perplexa, gostaria de entender.





