BUENOS AIRES, 20 (AE) Uma ordem de captura internacional contra o ex-presidente general João Batista Figueiredo. Isso é o que pretende a argentina Cláudia Alegrini, viúva de um dos seis argentinos desaparecidos no Brasil durante a ditadura militar.
O desejo dessa argentina, que é uma das principais mobilizadoras da investigação sobre a Operação Condor, é descobrir o corpo de seu falecido marido, preso ao entrar no Brasil, na cidade de Uruguaiana, em 1980.
Claudia disse à Agência Estado esperar que a partir de agora a investigação avance. Motivos não lhe faltam: pela primeira vez um juiz decidiu concentrar-se no caso dos argentinos desaparecidos no Brasil.
É o juiz federal Claudio Bonadío, que na semana passada encaminhou um pedido ao governo brasileiro para o fornecimento de informações sobre os desaparecimentos e a estrutura no país da Operação Condor.
Além da Justiça argentina, as investigações sobre a operação serviriam à Justiça italiana. Dois dos seis argentinos desaparecidos no Brasil também tinham nacionalidade desse país, motivo pelo qual a Justiça da Itália está investigando os casos e poderá pedir a captura internacional de Figueiredo, presidente do país durante os últimos anos da Operação Condor.
Outro processado seria o então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general José Ferraz da Rocha, além do chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), general Otávio Medeiros, e chefes da Polícia Federal.
Dessa forma, Figueiredo não poderia sair do Brasil sob o risco de ser detido pela Interpol. Esse já é o destino de seus ex-colegas de ditaduras da região: os argentinos Jorge Rafael Videla, Emilio Massera, Leopoldo Galtieri e dezenas de militares uruguaios e chilenos, para os quais seus respectivos países tornaram-se uma grande prisão.
"Para Figueiredo, o Brasil será uma grande jaula", diz Claudia. Até o momento, o governo brasileiro reconheceu o desaparecimento dos argentinos Enrique Nestor Ruggia e Norberto Habegger. Ruggia era um estudante de veterinária de 19 anos que, entusiasmado com o grupo de esquerda comandado por Onofre Pinto, partiu para o Brasil, onde desapareceu em julho de 1974. Habegger foi detido no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, em agosto de 1978.
Habegger, que era jornalista, estava exilado no México e tentava voltar à Argentina para reorganizar a resistência contra a ditadura.
Os casos dos outros quatro argentinos desaparecidos no Brasil não são reconhecidos porque seus desaparecimentos ocorreram além de prazos estipulados pela lei brasileira. Eles são Jorge Oscar Addur, um sacerdote católico que viajou em julho de 1980 a Porto Alegre para tentar encontrar-se com o papa João Paulo II, que visitava o Brasil, e alertar o sumo pontífice das graves violações aos direitos humanos.
Addur nunca chegou à capital gaúcha: foi sequestrado no ônibus em que viajava, na frente de todos os passageiros. Monica Pinus de Binstock é outra desaparecida. Em março de 1980 desembarcou no Galeão. Ela vinha do Panamá e pretendia voltar à Argentina.
Com ela viajava Horacio Domingo Campiglia. Ambos foram cercados por um grupo de 20 policiais à paisana. Monica ainda teve tempo de gritar aos passageiros no saguão que estavam sendo sequestrados. Nunca mais foram vistos.
Lorenzo Viñas, marido de Claudia, é o sexto argentino desaparecido. "Achávamos que no Brasil estaríamos mais seguros", disse Cláudia ao Estado. Segundo ela, Lorenzo decidiu ir primeiro para o Brasil, onde se instalaria e posteriormente prepararia a ida da família para a Europa.
Dias depois, sem notícias do marido, Claudia viajou ao Brasil para averiguar. Em Curitiba, nos escritórios da empresa Pluma, a lista indicava que ele havia entrado no lado brasileiro. "Peço a quem tiver visto o sequestro de Lorenzo que faça declarações à Justiça", diz Claudia.
Ela sustenta que, pelos arquivos descobertos da Operação Condor, as empresas de transporte dos países envolvidos colaboravam com os governos militares, fornecendo as listas de passageiros.
Com a morte de Lorenzo, Claudia ficou viúva aos 19 anos, cuidando sozinha de uma filha com menos de 1 mês. Hoje, a filha é estudante de agronomia e Claudia trabalha na Subsecretaria de Direitos Humanos da Argentina.
Claudia considera que, com o aprofundamento institucional do Mercosul, as investigações sobre as violações dos direitos humanos serão intensificadas. Mas, segundo ela, "esses militares não vão ser condenados".
"Essa é a realidade. Mas acho que se pode tentar passar de um Mercosul da repressão e do horror a um Mercosul dos direitos humanos." Cláudia sustenta que o que mais deseja "é saber qual foi o destino final de nossos seres queridos. Quero que minha filha possa saber onde está enterrado o pai para levar-lhe flores".
O nome da ave mais famosa dos Andes serviu para designar a coordenação mais ampla de repressão já vista na América Latina: a Operação Condor. O plano constituiu-se no intercâmbio de informações sobre supostos "subversivos", além de sua detenção nos países do Cone Sul e seu envio imediato ao país de origem.
Ao longo dos anos 70 e início dos 80, a operação permitiu que militares de um país pudessem caçar seus perseguidos políticos em outros países da região, com o apoio logístico dos repressores locais.
A gênese da Operação Condor ocorreu em 1974, durante uma reunião entre o ditador chileno, general Augusto Pinochet, e o ditador paraguaio, Alfredo Stroessner. No início, a existência da operação não passava de uma forte suspeita, até que foi confirmada por um jornalista paraguaio, que descobriu em Assunção o mais amplo arquivo a respeito até hoje conhecido.
Por causa da Operação Condor, também desapareceram pelo menos sete brasileiros na Argentina: Jorge Alberto Basso, Sidney Fix Marques dos Santos, Sérgio Fernando Tula, Roberto Rascado Rodrigues, Luis Renato Dolago Farias, Maria Regina Marcondes Pinto e Francisco Tenório Cerqueira Júnior, músico do grupo de Vinícius de Moraes.

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