Paris, 23 (AE) - Um grupo de mulheres jovens e encantadoras invadiu as vitrines da grande loja Les Galeries Lafayette - um dos "templos" mundiais do comércio feminino. Estas belas manequins só traziam as roupas de baixo - calcinhas, sutiens, ligas, meias, etc. - e todas as peças eram assinadas pela grande estilista de vanguarda de roupas íntimas, Chantal Thomass.
Durante o dia inteiro, essas mulheres faltaram aos seus empregos, se pentearam, passaram pó no nariz, tomaram chá, tagarelaram, passaram verniz nas unhas. Deitaram-se no sofá, sempre de sutien e calcinha, como se ninguém as pudesse ver, enquanto na rua, homens e rapazes se comprimiam e esmagavam o nariz contra a vitrine... Algumas mulheres também olhavam.
Mas, algumas feministas passaram por lá. E berraram. Tristeza e indignação! Então, disseram elas, 50 anos depois de Le Deuxime Sexe, o livro de Simone de Beauvoir, que continua sendo uma das bíblias do movimento de liberação feminina, voltamos ao período pre-histórico... As "jolies dames", essas alegres garotas das Galeries Lafayette, voltaram a colocar em cena essa "mulher objeto" da qual - segundo muito ingenuamente acreditávamos - já nos tínhamos libertado.
É preciso dizer que a idéia das Galeries Lafayette tinha algo de chocante: naturalmente, na Europa, as mulheres estão vendo seios nus nas praias e isso é interpretado como "liberação". É verdade, a mulher quer sentir-se à vontade, livre, liberta de todas os penduricalhos incômodos, dos quais o sutien é um símbolo pesado. A "mulher seios nus" marca o fim da "mulher objeto". Ao contrário, a mulher com roupas íntimas provocantes representa a volta da mulher objeto.
Além disso, os seios nus estão nas praias, nas areias, sob o sol.
Portanto, é a mulher natural... Nenhuma relação com o espetáculo detonante que constitui uma mulher de calcinha e liga em plena cidade.
Uma mulher que se encontra em seu quarto, mas por trás de uma parede ou um biombo transparente, garante o triunto do exibicionismo e do "voyeurismo.
Acrescente-se a isso que as mocinhas em sua vitrine evocavam irresistivelmente as mulheres prostitutas de Amsterdã, na Holanda,que esperam seus clientes num quarto de paredes transparentes. As "mulheres à vitrine" de Amsterdã constituem para muitos europeus o paradigma, o sinal e o símbolo da prostituta. De sorte que as Galeries Lafayette, no intuito de vender suas calcinhas, transformaram os manequins em prostitutas e os transeuntes em clientes de um bordel.
As "feministas" mobilizaram por isso os grandes batalhões de mulheres e agiram a nível político e foram tão convincentes que conseguiram proibir a continuação da experiência. Mas isso gerou uma polêmica. A criadora de calcinhas, Chantal Thomass, declarou que também é feminista e até mesmo discípula de Simone de Beauvoir!
"Tive a sorte de nascer numa época em que as feministas, guiadas por Simone de Beauvoir, haviam feito seu trabalho", disse Chantal Thomass, "É preciso saborear e aproveitar isso".
A isso uma deputada feminista, Madame Bachelot, respondeu violentamente: " Chantal Thomass nos toma por idiotas. As mulheres não passam o tempo fazendo as unhas... O dia-a-dia das mulheres continua sendo a cama, a louça, a roupa suja. etc. Em âmbito mundial, a situação das mulheres é deplorável: elas fornecem 80% das horas de trabalho e não possuem senão 10% dos bens materiais".
Percebemos que, se o espetáculo das Galeries teve aspetos degradantes e repugnantes, teve também alguns pontos positivos: os jovens puderam ver mulheres em sua intimidade. Os velhos senhores tiveram a oportunidade de se lembrar de seus "velhos bons tempos". Os filósofos pró- ou anti-feministas encontraram uma ocasião maravilhosa para trocar idéias.
No final das contas, o verdadeiro vencedor da história é o comércio e, sobretudo, a criadora Chantal Thomass, que se beneficiou de uma publicidade mundial para um investimento no campo da moda.

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