Vitórias peronistas não deverão afetar eleições presidenciais
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sexta-feira, 01 de outubro de 1999
Por ARIEL PALACIOS, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
BUENOS AIRES, 02 (AE) - Desde o começo do ano o partido do governo, o Justicialista (mais conhecido por peronista), venceu as eleições para governador em 11 províncias, enquanto a coalizão de oposição, a Aliança UCR-Frepaso, venceu somente em 4. As eleições provinciais na Argentina não ocorrem, obrigatoriamente, ao mesmo tempo que as eleições presidenciais, que se realizarão no dia 24. Esse fato, teoricamente, proporcionaria nos meses anteriores um termômetro político dos sentimentos dos eleitores em relação à intenção de voto para presidente.
Em qualquer outro país essa seria a dedução lógica. Mas não funciona na Argentina: muitos dos eleitores que votaram nos candidatos provinciais peronistas nos últimos meses e semanas votarão daqui a poucos dias no candidato da Aliança, Fernando De la Rúa, o favorito nas pesquisas, que tem mais de 15% de diferença sobre o candidato peronista, Eduardo Duhalde. Dessa forma, o próximo governo teria um interior dominado pelos peronistas, mas um presidente da Aliança.
Nessas 15 eleições que lhe permitiram ficar com 11 províncias (Córdoba, Salta, Santa Cruz, Tucumán, Tierra del Fuego, Santa Fé
Santiago del Estero, La Rioja, Misiones, San Luis e Formosa), os peronistas conseguiram 3,23 milhões de votos, o equivalente a 56,9% do total. A Aliança, (que venceu em Catamarca, San Juan, Río Negro e Chaco) conseguiu 2,44 milhões de votos, o equivalente a 43,1%. Na província de Neuquén venceu o Movimento Popular Neuquino (MPN), um partido provincial.
Ainda restam eleições nas províncias de Buenos Aires, Entre Ríos, La Pampa, Chubut, Jujuy e Mendoza, que ocorrerão com as eleições presidenciais. Em metade delas, segundo pesquisas, a eleição para governadores será favorável ao peronismo, fato que preocupa De la Rúa que, se vencer, terá de conviver com uma maioria de governadores opositores até 2003. Eles dominam o interior de forma quase feudal e são imprescindíveis para governar o país.
O analista político Rosendo Fraga disse à Agência Estado que, pelo fato de as eleições provinciais terem sido separadas das eleições presidenciais, "o voto - cada vez mais independente e menos cativo, apesar da política clientelista que persiste no interior do país -, tem a possibilidade de expressar-se de forma diferenciada". Na Argentina, o voto é vinculado: vota-se na legenda. O voto provincial antecipado é uma forma de votar de forma não vinculada.
O analista Oscar Raúl Cardoso afirmou à AE que o sucesso nas províncias não será repetido nas eleições do dia 24: "O efeito não pode ser nacionalizado. As campanhas para governadores e para presidente são quase dois mundos diferentes. O peronismo teve um bom resultado, mas em províncias marginais e pobres, como no caso de Formosa, no domingo. Os fatores da vitória peronista em Formosa não têm nada a ver com o restante do país. Ali, 75% do eleitorado trabalha como funcionário público ou em empresas estatais."
Cardoso sustenta que a perda da UCR do governo de Córdoba para o peronismo se deve "a mais de uma década e meia de um governo que estava em ruínas. No caso de Tucumán, foi o governo do general Antonio Bussi, que terminou no meio de uma profunda crise social. O mesmo está ocorrendo com o governo federal, que, após uma década de peronismo no poder, está em estado de decomposição. Essa diferenciação dos votos é um fenômeno completamente novo no país".
Analistas consideram que o fracasso previsto do peronismo nas eleições para presidente se deve também à falta de acordos de Duhalde com os governadores vitoriosos do interior. O presidente Carlos Menem, com grande força entre os líderes peronistas do interior, esteve ausente da campanha de Duhalde, seu inimigo interno no partido.
Os governadores já apostam na derrota de Duhalde e esperam ver Menem ressurgindo novamente como líder de um peronismo que passará à oposição pelos próximos quatro anos. Dessa forma, desvaneceram-se as esperanças de Duhalde de que as vitórias peronistas nas províncias lhe proporcionariam uma virada a poucas semanas das eleições presidenciais.
A vantagem de De la Rúa sobre Duhalde continua ampliando-se: segundo o Gallup, o candidato da Aliança possui 47% das intenções de voto e o candidato peronista, 28%. Em terceiro lugar vem o ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo, da Ação pela República, com 8% a 10%. Dessa forma, De la Rúa já estaria 2% acima do mínimo necessário para evitar um segundo turno que, por peculiaridades da lei argentina, requer somente 45% e não os tradicionais 50% mais um exigidos no restante do mundo.
Segundo o Gallup, Duhalde estaria em queda desde junho, após seis meses pisando nos calcanhares de De la Rúa. Esta pode constituir-se na pior derrota de um peronista desde que o partido foi fundado há meio século pelo general Juan Domingo Perón. Até hoje, o peronismo jamais havia caído de seu piso histórico de 35%.
Apesar da alegria na Aliança, que já começa a repartir os ministérios, há uma última preocupação: a fraude. Mesmo com tão ampla vantagem sobre o peronismo, a coalizão de oposição teme que esse problema possa ocorrer, especialmente nas províncias do interior. Os lugares onde a Aliança terá mais atenção serão aqueles onde venceu o peronismo, já que ali foram detectados títulos eleitorais falsificados. Nas próximas semanas, cem mil fiscais serão treinados para vigiar as 90 mil urnas onde votarão os 24 milhões de eleitores em todo o país. "As eleições não se vencem com pesquisas", afirmam cautelosos.
De la Rúa está evitando o confronto de Duhalde e ignora as acusações que o peronista lhe faz, como a de querer fazer um drástico ajuste econômico. Além de disparar críticas contra seu oponente, Duhalde está atacando o Fundo Monetário Internacional, pois o órgão já está em conversações com a equipe econômica de De la Rúa como se fossem os vitoriosos. Enfurecido, Duhalde chamou o FMI de usurário e disse que a organização "enche os bolsos com dinheiro" dos argentinos.
Os líderes do próprio peronismo não estão acreditando na vitória de Duhalde e o dizem publicamente. É o caso de Manuel de la Sota, governador da Província de Córdoba, considerado um dos prováveis presidenciáveis para a eleição de 2003. De la Sota admitiu que não existe motivação por Duhalde entre os eleitores. Um pouco mais sutil, o ministro do interior, Carlos Corach, admitiu que Duhalde está perdendo, mas "a diferença é menor" que a fornecida pelas pesquisas.


