Buenos Aires, 10 (AE) - Mais um duro golpe foi desferido contra o poder do presidente Carlos Menem: o vice-presidente Carlos Ruckauf foi escolhido pela convenção aberta do Partido Justicialista (o PJ, também conhecido como "peronista") como o candidato para o governo da província de Buenos Aires, a mais rica e poderosa do país, onde concentra-se 40% do eleitorado.
No último ano, Ruckauf afastou-se de Menem para aliar-se ao principal inimigo político do presidente: o governador da província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde, que é pré-candidato à convenção peronista do dia 4 de julho para a escolha do candidato do Partido à presidência do país.
Ruckauf conseguiu 80% dos votos, contra 15% do histórico político peronista Antonio Cafiero, que teve uma votação menor que a esperada. A importância da eleição deste domingo vai mais além da designação do candidato peronista ao governo da província de Buenos Aires: ali foi dado mais um passo na direção do fim do governo Menem, que ao longo de uma década controlou o país sem oposição interna no peronismo.
A magnitude desta eleição evidencia-se pela sua forma: foi direta, e dela participou 1,4 milhão de simpatizantes peronistas e eleitores independentes, o que foi interpretado como uma ratificação da candidatura de Duhalde mesmo antes da convenção nacional. Duhalde aproveitou a vitória de seu protegido político para dar recados diretos sobre Menem, de quem pretende diferenciar-se cada vez mais com uma crescente estratégia de confrontação: Duhalde disse que - ao contrário do que sustenta Menem - o peronismo não vai aprofundar o atual modelo econômico. "E se Menem insistir nisso, vou dizer que não", afirmou Duhalde, conhecido por pregar uma volta ao peronismo à moda antiga: assistencialista e protecionista.
Afirma-se que Duhalde não pensa deixar os "cafieristas" fora de seu governo. Dias atrás, o próprio Cafiero admitiu que o presidente havia desaparecido de sua campanha, e que o havia deixado sozinho. Por esse motivo, especula-se que Duhalde poderia tentar uma aproximação com esse setor, fazendo que Menem fique cada vez mais isolado politicamente.
O principal think tank argentino, Rosendo Fraga, disse à AGÊNCIA ESTADO que o triunfo dos candidatos de Duhalde na convenção do peronismo implica em sua consagração como o "candidato natural" do peronismo. "O menemismo já não possui posibilidades políticas de apresentar um candidato alternativo para a convenção interna nacional à presidência no dia 4 de julho".
Segundo Fraga, o menemismo deixou de ser uma força dominante na província de Buenos Aires. Além disso, o think tank considera que se Duhalde vencer a eleição presidencial, Menem deixará de ter qualquer espécie de poder dentro do peronismo. No entanto, muito antes disso acontecer, Fraga sustenta que durante a campanha eleitoral Menem ainda terá poder de prejudicar Duhalde: "o problema que Duhalde precisa resolver é que para Menem talvez seja mais conveniente que vença Fernando De La Rúa, o candidato da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso, que do alguém do partido peronista. Desta forma, Duhalde terá que neutralizar possíveis atos de Menem feitos com a intenção de complicar-lhe a eleição".
O ano é puramente eleitoral, não só pelas eleições presidenciais de outubro, mas pela eleição deste domingo na província de Salta, pelas eleições na província de San Juan no próximo domingo, e no mês de junho, a eleição para o governo da província de Santa Cruz.
Este domingo não foi um bom dia para o presidente Menem. Seu pré-candidato ao governo da província de Buenos Aires havia sido derrotado, e simultaneamente, o River Plate, time pelo qual é fanático, era derrotado pelo Boca Juniors. Mas o presidente tentou conseguir pelo menos um trunfo: enquanto os duhaldistas comemoravam na província de Buenos Aires, Menem viajava à província de Salta, no norte do país.
Ali, no mesmo dia, haviam sido realizadas eleições para o governo da província (na Argentina as eleições provinciais podem ser marcadas em qualquer época, dependendo das constituições locais), e Juan Carlos Romero, o atual governador peronista, era reeleito.
Romero teve uma avassaladora vitória, derrotando o candidato da coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso por uma vantagem de 20%. Menem não hesitou pegar carona na festa da vitória, "que em alguma medida me pertence", afirmou. Salta é uma das províncias mais pobres do país: 55% da população é considerada pobre ou indigente.
Outro sinal de que a debandada dos governadores em direção a Duhalde continua e se acentuará nos próximos dias foi a atitude de Romero.
Antes da chegada de Menem à Salta, como forma de separar sua imagem do presidente, deu sozinho uma coletiva de imprensa e também reuniu-se com um assessor de Duhalde para negociar sua passagem para fora do grupo menemista. Menem teve que conformar-se com uma breve coletiva, onde disse em termos genéricos - sem citar a Ruckauf em momento algum - que a vitória de uma das chapa era mais um sinal da democracia do peronismo. Depois, sozinho, Menem discursou desde a sacada de um hotel para uns poucos curiosos que ouviram dele uma sutil, mas significativa advertência do que ainda está por vir: "a lealdade é a base da política".

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