WATERVILLE, Maine, 20 (AE) - O senador John McCain ainda pode causar algum estrago à candidatura do governador do Texas, George Bush, à Casa Branca, se tiver gás para sustentar sua campanha até as primárias do próximo dia 7 de março, quando os eleitores em mais de uma dúzia de estados, incluindo Nova York e Califórnia, irão às urnas. Mas a convincente vitória de Bush sobre McCain nas primárias da Carolina do Sul, no último sábado, quebrou o ímpeto da tentativa de rebelião que o senador comandou entre os conservadores depois de seu triunfo em New Hampshire, no início do mês, e recolocou o governador do Texas na posição de favorito para disputar a presidência no dia 7 de novembro com o vice-presidente Albert Gore, o candidato mais do que provável dos democratas.
Para Alexander "Sandy" Maisel, professor de Ciência Política do Colby College, o aspecto mais notável da briga entre os contendores republicanos nas últimas três semanas é menos o ressurgimento de Bush, cuja posição, para ele, nunca esteve ameaçada. "O extraordinário é que Bush tenha conseguido tirar da disputa candidatos potencialmente viáveis, como Elizabeth Dole (ex-ministra dos Transportes e do Trabalho) ou o deputado John Kasich, antes que suas vulnerabilidades fossem expostas por McCain e antes que o primeiro voto fosse depositado nas urnas".
Maisel, que é democrata, não tem uma opinião das mais favoráveis sobre as qualificações de Bush para ser presidente dos Estados Unidos. "Ele dá a impressão de que nunca leu um livro na vida e, a julgar por suas declarações sobre temas como o aborto, não leu sequer a plataforma do Partido Republicano", disse Maisel à AE. "Bush não fez praticamente nada na vida até os 40 anos de idade, governa um estado onde o governador tem muito pouco poder e é um político que repete clichês e obviedades".
Embora não afaste a hipótese de o governador capitalizar o sentimento de fadiga que existe no eleitorado em relação ao presidente Bill Clinton, Maisel chama atenção para a vulnerabilidade de Bush assinalando que o governador do Texas perdeu espaço nas pesquisas nacionais para Gore pelo simples fato de ter sido confrontado por McCain, "um candidato inviável porque depende do apoio de independentes e de democratas em estados com primárias abertas para ganhar a nomeação republicana, e isso não vai acontecer".
De fato, algumas sondagens nacionais já colocam o vice-presidente à frente do governador do Texas, apesar de sua falta de carisma pessoal.
Com a disputa presidencial reduzida a Bush e Gore, Maisel acredita que a campanha será uma das mais sonolentas que os americanos já viram. "A não ser em questões como o aborto, há na verdade muito pouca diferença nas propostas de Bush e de Gore e ambos terão que disputar os votos no centro, o que tenderá a diminuir ainda mais o que distingue um do outro", disse ele. "E com esses dois candidatos, não há como não ter uma campanha aborrecida".
Com os Estados Unidos no auge da prosperidade, isso é provavelmente o que os americanos desejam, ou seja, uma campanha sem maiores surpresas e um desfecho que não prometa maiores mudanças, independentemente do resultado, reconhece Maisel. "James Madison deve estar feliz", observa ele, referindo-se ao quarto presidente dos EUA e principal autor da constituição americana, para quem o governo devia intervir o mínimo na vida dos cidadãos, mudar pouca coisa e, acima de tudo, não causar danos ao país. "O sistema montado no século 18 continua a funcionar", disse ele. "Minha dúvida é se esse é o sistema de que precisaremos no século 21", continuou. "Dez anos depois de o presidente George Bush ter alertado que, com o fim da guerra fria, os EUA teriam que redefinir sua liderança numa nova ordem internacional, continuamos a não ter nenhum sentido sobre isso e sobre o papel do país no mundo".
Na frente doméstica, "esta campanha será uma oportunidade perdida para discutirmos maneiras de usar nossa atual prosperidade para fechar o fosso entre ricos e pobres". Para Maisel, que dirige atualmente um estudo com outras universidades sobre a queda da qualidade para a Câmara de Representantes, tudo isso é lamentável. "Com o país no auge do poder, o que teremos é uma campanha dominada por obviedades e pela trivialização da vida política", disse ele.
As disputas pelos 435 cadeiras de deputados e por 33 das 100 vagas de senadores, que ocorrerão simultaneamente à briga pela presidência, não prometem trazer maior animação, apesar da possibilidade de os democratas retomarem o controle da Câmara dos Representantes e diminuir a vantagem de 10 cadeiras que os republicanos têm no Senado. "Dos cerca de 400 deputados que disputam a reeleição, 395 devem se reeleger", disse Maisel. "Mesmo que os democratas avancem e ganhem o controle da Câmara, sua maioria será muito apertada e não fará muita diferença".

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