Vítimas tentam pôr vida em ordem
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quinta-feira, 06 de janeiro de 2000
Por Rosa Bastos 
Campos do Jordão, SP, 06 (AE) - Hoje, passada a tormenta e sob um sol muito forte, em Campos do Jordão, ainda desnorteadas, as vítimas da chuva tentavam recolocar a vida em ordem. Por toda parte, viam-se pessoas carregando móveis cobertos de lama, retirando dos escombros algum objeto ainda intacto ou útil.
Nelson da Rosa, de 67 anos, voltou ao local onde ficava sua casa, na Vila Santo Antônio. Morava com a mulher, Lourdes Marli e os filhos - sete pessoas no total, que também o ajudavam a tocar um pequeno comércio ao lado. De tudo que tinha, recuperou um rádio, um serrote e a moto do filho cheia de terra e com a caixa de câmbio estourada. "Ficou inteirinha debaixo da lama, acho que não anda mais", disse desolado. "O bar já era... não sei o que vou fazer da minha vida."
A casa onde Iolanda Alves dos Santos Silva, de 68, vive há mais de 20 anos e criou os filhos permanece de pé, milagrosamente à beira da encosta. Os vizinhos todos foram embora, mas ela ficou com o Sheik, um vira-lata apavorado escondido em sua casinha. À noite, Iolanda dorme na casa de uma irmã, em área mais segura; de manhã, volta correndo ao encontro de Sheik, que vigia, sem arredar pé. "Não gosto da casa dos outros."
Desbarrancado, o jardinzinho em volta, onde ela cultiva dálias e hortênsias está coberto por plástico. "Isso segura, não tem perigo." Viúva há dois anos, Iolanda vive dos "pingadinhos" que os quatro filhos, todos casados lhe dão. À tarde, ameaça chover. Ela sente medo, mas fica.
Durante oito anos, o pedreiro, encanador e carpinteiro Manoel Monteiro dos Santos, de 42 anos, construiu a casa dele com a ajuda da mulher, Rita Maria, de 36. "Meia hora antes de eu ter essa daí - diz a mãe apontando a filha mais velha - eu estava pintando uma parede." Santos aplainou o terreno, fincou colunas grossas de cimento e tratou de proteger todo o entorno da casa. "Soquei a terra com raiva pra ela não ceder, plantei grama e arbustos." Graças a isso, a casa deles resistiu quando o barranco, que sustentava a casa vizinha, despencou sobre ela.
Mas, de todo modo, há risco e eles tiveram de tirar todas as coisas e mudar-se para a casa de parentes. Há tempos, Santos alertava o vizinho sobre o risco de deslizamento e o aconselhava a fazer uma obra de contenção da encosta. O homem ficou bravo, até brigou. "Em vez de plantar grama, ele limpou o mato e fez uma horta", conta o pedreiro. "Depois que caiu ele entendeu."Depois da tragédia, o vizinho foi embora. Após dois dias de chuva, Santos começou a cismar que tudo poderia vir abaixo. Antes que acontecesse o pior tirou os filhos e os móveis. I nês de Fátima Luiz, de 39 anos, recepcionista do pronto-socorro municipal só conseguiu abrigar os dois filhos na casa de parentes. Na madrugada do dia 4 voltou para tentar salvar o jogo de quarto, cujas prestações ainda vai pagar até setembro. Estava lá, desmontando o guarda-roupa quando ouviu um estrondo e a enxurrada desceu com tudo, inclusive várias casas. A dela, grande, bem feita, de alvenaria, ficou destruída. "Acabou com a minha casa que era segura, não me conformo."
Há quatro dias sem dormir nem comer, hoje à tarde Inês buscava, em meio aos escombros, algumas coisas que pudesse recuperar. Uma pilha de discos, um espelho, roupas, documentos, os brinquedos da filha. "Aqui era o quarto dela, ali o do meu filho e onde está aquele mato era o meu quarto: se estivéssemos aqui teríamos morrido.
Com o choque, ela desmaiou. Foi levada desacordada para o PS onde trabalha pelo carpinteiro Natálio Moreira, de 28 anos, que ela agora chama de "meu herói". Inês calcula seu prejuízo em R$ 40 mil. E sugere que a prefeitura destine a verba que usaria para asfaltar a rua de cima, que não existe mais, para ajudar os desabrigados a recomeçar.


