Curitiba - Há cinco anos, dois jovens paranaenses voltaram para casa depois de um período turbulento na Europa. Enganados por aliciadores, um londrinense e uma curitibana tiveram o sonho de morar no exterior transformado em um dos piores pesadelos pelos quais um imigrante pode passar. Depois de serem forçados a se prostituir e a transportar drogas, conseguiram retornar.
Quando voltaram, receberam atendimento na unidade curitibana da Pastoral do Migrante. Pouco tempo depois, no entanto, deixaram de fazer contato com a entidade, que é responsável por acolher vítimas do tráfico de pessoas.
E é justamente esse comportamento que impede que os órgãos responsáveis por combater esse tipo de crime consigam chegar aos agenciadores. ''A grande maioria (das vítimas) não admite ter sido enganada, tem vergonha do que aconteceu e prefere tentar esquecer. Outros têm medo de serem localizados pelos mesmos criminosos que o aliciaram. Por isso preferem o silêncio. Parte deles recomeça a vida, mas alguns acabam se isolando, desenvolvem depressão e a entidade trabalha no sentido de orientar essas pessoas'', explica Elizete Santana de Oliveira, coordenadora da Pastoral.
Sem informações detalhadas, o trabalho de identificação das redes internacionais e nacionais de tráfico de pessoas pelas polícias é prejudicado. A consequência é que em seis anos apenas 475 casos foram registrados oficialmente no País, conforme dados de um relatório preliminar da Secretaria Nacional de Justiça (SNJ) do Ministério da Justiça e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). Desse total, 337 vítimas sofreram exploração sexual e 135 foram submetidas a trabalho escravo.
Conforme o levantamento, entre 2005 e 2011, o Suriname foi o país que mais recebeu vítimas brasileiras: 133. Em seguida aparecem Suíça (127), Espanha (104) e Holanda (71). As próprias autoridades admitem, no entanto, que essas estatísticas representam uma pequena parte das ocorrências.
Ainda segundo o UNODC, o tráfico de pessoas é o terceiro crime mais rentável do mundo, movimentando cerca de US$ 32 bilhões por ano. Segundo o Ministério Público Federal (MPF) no Paraná, desde 2005, somente 27 ações penais e inquéritos policiais sobre tráfico de pessoas foram registrados no Estado.
Para o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador do Departamento de Direitos Humanos e Cidadadania da Secretaria de Estado da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (Seju), José Antônio Peres Gediel, o problema ainda é ''invisível''. ''Há pouco tempo o problema começou a ser discutido, tanto que não temos dados precisos. Existem novos fluxos migratórios, novas realidades que se articulam inclusive com o trabalho escravo. Pessoas são levadas por meio de um artifício, acabam perdendo os passaportes e ficam dependendo dos seus aliciadores. Isso está presente em nosso País, principalmente em relação ao tráfico de mulheres e o Paraná também faz parte desta composição'', alertou.
A estratégia de combate ao tráfico de seres humanos é baseada em campanhas de conscientização e na ampliação da rede nacional de apoio às vítimas. O governo federal deve anunciar em breve um pacote de medidas para combater essa modalide de crime. No Paraná, o Núcleo Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (NETP-PR) foi instalado ontem pela Seju. A meta é integrar instituições do poder público e da sociedade civil para levantar dados e discutir ações de combate ao crime.
''Precisamos identificar o alvo das redes de aliciadores. Sabemos que existe o tráfico, principalmente de mulheres. No Paraná, há alguns anos, também se comentava que os desaparecimentos de crianças estariam ligados a adoções ilegais no exterior, e até mesmo ao tráfico de órgãos. É uma realidade muito triste, mas essas redes estão disseminadas pelo mundo e são sofisticadas'', afirmou Gediel.
De acordo com Stella Maris Machado Natal, coordenadora do NETP-PR, o órgão visa a promover campanhas de conscientização, formar agentes públicos para identificar e acolher vítimas e incentivar as denúncias. ''O trabalho começa quando se tem conhecimento do tamanho do problema. Por isso, o diagnóstico é necessário. A partir disso conseguimos definir as diretrizes'', apontou. A SNJ orienta que sejam criados comitês nos municípios para difundir as informações por todo o território nacional.
''Será um trabalho integrado entre diversos poderes, numa articulação com o governo federal. O Paraná será cobrado pela SNJ em relação às medidas públicas tomadas neste assunto, por isso estamos avançando'', destacou a secretária estadual da Justiça, Maria Tereza Uille Gomes.
Serviço
Núcleo Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas
Rua do Rosário, 144, 8º andar, Centro.
Informações pelo (41) 3338-1832 e www.mj.gov.br/traficodepessoas

Imagem ilustrativa da imagem Vítimas evitam denunciar quadrilhas de agenciadores
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