Um protesto ontem à tarde na Cinelândia, centro do Rio, lembrou o primeiro ano da tragédia do Palace 2 - prédio que desabou na Barra da Tijuca, zona oeste da cidade, provocando a morte de oito pessoas. Cerca de 30 ex-moradores participaram da manifestação contra o ex-deputado Sérgio Naya, dono da construtora Sersan, responsável pela construção do edifício. O protesto foi marcado pela indignação, mas os ex-moradores tiveram um motivo para comemorar.
Hoje eles reúnem-se com dirigentes do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea) para discutir uma contestação formal do laudo oficial sobre as causas do desabamento - preparado por peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) e anexado ao inquérito policial -, que aponta o erro de cálculo estrutural como causa da queda do prédio. Essa hipótese incrimina o engenheiro José Roberto Chendes, responsável pelo cálculo, e pode livrar Naya de um processo criminal.
A base de argumentação dos ex-moradores será a matéria ‘‘Laudo ignora hipótese de especialistas’’, publicada ontem no jornal ‘‘O Estado de S.Paulo’’, que apresenta um relatório preparado por dois professores da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-RJ), chamados pelo ICCE para fazer a análise técnica que balizou o laudo oficial. O documento conclui que, além do erro de cálculo, dois erros de execução da obra seriam responsáveis pelo desabamento, o que envolve diretamente o responsável pela obra, que, segundo o registro do Crea, foi o engenheiro Sérgio Naya.
Arquivo FolhaSérgio Naya, dono da construtora Sersan, teve os direitos políticos cassados‘‘É preciso dar importância a essa conclusão do grupo de especialistas, que não foi considerada no laudo; é preciso considerar isso’’, afirmou o diretor de fiscalização do Crea, o arquiteto Canagé Vilhena da Silva. ‘‘Essa colaboração do Crea será muito importante, porque, pela primeira vez, vamos discutir tecnicamente esse laudo; queremos fazer uma contestação formal para desmascarar os peritos do ICCE ’’, afirmou o físico Ruy Feital, ex-morador do Palace 2.
O laudo da Polícia Civil aponta falhas estruturais como causa. ‘‘Com esse laudo, Naya pode ficar livre. Outros pareceres apontaram falhas de execução do projeto, e Naya era o engenheiro responsável , afirmou Feital. A reunião será às 15 horas, na sede do Crea.
O protesto de ontem no centro do Rio contou com um telão em que era passado repetidamente um documentário de 1h30, feito a partir de reportagens da época sobre o desabamento. Os ex- moradores carregavam faixas em espanhol e inglês. Numa delas, lia- se: ‘‘Naya não é só incorporador e empreendedor internacional, e sim matador nacional; cadeia nele!’’
‘‘Só quero que a Justiça faça seu trabalho, que é denunciar Naya pelo crime que ele cometeu’’, afirmou Bárbara de Alencar, que perdeu a filha Luísa, de 12 anos, no desabamento. A presidente da Associação das Vítimas do Palace, Rauliete Barbosa Guedes, anunciou que está programada para o próximo dia 28 - quando completa-se um ano da implosão do prédio - uma manifestação de ex-moradores em Orlando, nos Estados Unidos, onde Naya também possui imóveis e negócios. ‘‘Só falta conseguir as passagens’’, disse.
A associação procura meios jurídicos para bloquear os bens de Naya também no exterior. ‘‘Já fizemos contatos com advogados em Orlando’’. Na manifestação de ontem correu um abaixo-assinado pedindo a inelegibilidade ‘‘eterna’’ do ex-deputado. Cassado no ano passado por falta de decoro parlamentar, Naya tornou-se inelegível por oito anos.
Pela manhã, um grupo de ex-moradores participou da gravação, na praia do Recreio dos Bandeirantes, na zona oste, de cenas da novela da Rede Globo ‘‘Pecado Capital’’, de Glória Perez. Estava programada para as 20h30 de ontem a realização de um culto evangélico em nome das oito vítimas do desabamento.

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