Londrina - A comerciante Orinéia Inácio é uma das 1.089 pessoas contaminadas pelo vírus da dengue este ano em Londrina. A exemplo da maioria das vítimas do mosquito Aedes aegypti, ela vive na Zona Leste, região com maior número de casos confirmados na cidade: 741. Já recuperada, ela lembra que os dias em que os sintomas se mostravam mais acentuados foram de muito sofrimento.
''Parece que eu estava passando numa daquelas máquinas de moer carne. Doía todo meu corpo, era uma sensação constante de cansaço, além da coceira nas mãos e pés. Não desejo isso para ninguém'', afirma.
Orinéia se declara decepcionada com o relaxo de parte da população, que não colabora para evitar o alastramento de focos do mosquito transmissor da doença. ''É complicado porque a gente faz nossa parte, mas depende dos outros'', lamenta.
O pensamento de Orinéia é compartilhado pelo empresário Luciano Rosa, que também teve dengue. ''Uma coisa que me revolta são os ferros-velhos e locais que ficam abandonados e descobertos. Aquilo é perfeito para o mosquito proliferar'', critica o morador do Jardim Antares (Zona Leste).
O sofrimento de Rosa foi em família. A esposa dele, Márcia, também apresentou sintomas de dengue na semana passada. O casal sofreu unido, mas cada um sentiu de forma bastante distinta os efeitos provocados pelo vírus. ''Tive mais febre, um pouco de diarreia e vômito, enquanto ela teve mais dor de cabeça, coceira e inchaço nas mãos e pés'', comenta.
De acordo com o infectologista André Bortoliero, o mosquito da dengue tem hábitos diurnos e visa principalmente as pernas. ''Os sintomas normalmente começam a aparecer sete dias depois da picada, pois durante esse período o vírus se multiplica e se espalha pelo corpo. Quando começa a febre é sinal de que o organismo está combatendo o vírus'', explica.
Proprietários de um pet shop, Luciano e Márcia tiveram também prejuízo financeiro por conta da doença. Com os dois doentes e sem ninguém para tocar o negócio, foi preciso deixar o estabelecimento fechado por alguns dias. Após passar pela experiência de ter dengue, Luciano Rosa confessa que está redobrando os cuidados. ''Eu e minha esposa sempre estávamos de olho em focos do mosquito, mas agora eu até já comprei repelente''.
Já Adilson Custódio, morador do Jardim Interlagos (Zona Leste), não faz parte das estatísticas, mas levará para o resto da vida uma marca amarga da doença. A mãe dele, Maria Aparecida Andrade, morreu em 30 de janeiro vítima da forma hemorrágica da enfermidade. Foi a primeira morte por dengue registrada no ano em todo o Estado. ''Ela tinha 64 anos, mas era uma mulher forte, com muito vontade de viver. Não tinha nenhum problema de saúde.''
Nascida em Assis (SP), Aparecida vivia há mais de 40 anos em Londrina. O filho ressalta que ela sempre tomou os cuidados necessários para evitar focos do mosquisto na casa dela. ''Ela era apaixonada pelo seu jardim. Tinha de tudo: samambaia, rosas, tudo bem arrumado. Quando a agente de endemias, que vistoriava o quintal dela soube do ocorrido, ela chegou a chorar. Minha mãe nunca deu brecha para focos do mosquito.''

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