Vítimas de uma guerra suja
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de dezembro de 1999
Por STEVEN AMBRUS, da Newsweek (assinatura obrigatória) 
Bogotá (AE) - O repórter Ignacio Gomez parece um animal perseguido. Ladrões arrombaram seu apartamento, saqueando arquivos e roubando disquetes de computador. Quando ele atende o telefone, acha que vai ouvir uma torrente de nomes feios - ou uma ameaça de morte; certa vez, alguém do outro lado da linha disparou uma metralhadora. Gomez evita locais públicos e já não toma táxi. Parou de visitar a família para não expor os parentes à ameaça mortífera que anda no seu rasto. "É um terrorismo psicológico constante", diz Gomez, que publicou denúncias contra os cartéis das drogas e os esquadrões da morte direitistas no diário El Espectador, de Bogotá. "Para alguém ser visado, agora basta simplesmente noticiar sobre a guerra civil ou pregar a reconciliação."
Enquanto a guerra civil iniciada 35 anos atrás continua no interior da Colômbia, uma guerra suja irrompe nas cidades. As vítimas vão de promotores públicos a ativistas dos direitos humanos, um ex-negociador da paz em nome do governo e o principal humorista do país. Dezenas e talvez centenas de intelectuais, homens de negócios e profissionais liberais têm sido ameaçados, sequestrados ou forçados a partir para o exílio.
Ao que parece, ninguém está a salvo da guerra fria - e num país onde os barões das drogas, oficiais direitistas do Exército e chefes guerrilheiros esquerdistas têm interesse em evitar o fechamento da paz, é, às vezes, impossível imaginar quem está puxando o gatilho.
Armas mercenárias - ou alvos - não faltam. Em Medellín, uma quadrilha de 300 matadores profissionais praticou dezenas de assassinatos para chefões das drogas e grupos paramilitares. Uma organização nebulosa chamada Exército Rebelde Colombiano - que parece incluir militares direitistas - faz ameaças de morte contra padres, jornalistas e professores universitários publicamente ligados ao movimento pela paz.
No mês passado, o mais importante bispo da Colômbia, que critica abertamente violações dos direitos humanos, cancelou algumas aparições em público depois que a polícia e promotores o alertaram sobre uma conspiração para matá-lo. O Departamento de Segurança Administrativa destacou cerca de 1.500 agentes para serem guarda-costas de centenas de vítimas em potencial. "É extremamente perigoso falar de paz ou direitos humanos na Colômbia", diz o romancista Arturo Alape. "O medo e a incerteza, causados pela direita ou esquerda, impõem sérios limites à vida intelectual." Até uma remota ligação com o movimento de paz pode ser perigosa. O humorista Jaime Garzón ganhou fama ironizando políticos, generais e chefes guerrilheiros numa série de programas de televisão irreverentes.
Mas quando Garzón, de 39 anos, foi abatido a tiros num cruzamento de Bogotá por dois pistoleiros montados numa motocicleta, alguns de seus amigos especularam que seus esforços para reativar as conversas de paz empacadas entre o governo e as Farc lhe haviam custado a vida.
Um importante articulista atribuiu a morte de Gazón a maus elementos das Forças Armadas que se opõem ao processo de paz. As altas patentes refutaram firmemente a alegação, e a autoria do assassinato ainda não foi apurada. "Os esforços para desestabilizar o país com ameaças e assassinatos só vão aumentar", adverte o articulista Francisco Santos, do jornal El Tiempo, de Bogotá. "Vai ser um ano muito, muito difícil." Naturalmente ninguém na Colômbia discorda.


