Vítimas de guerra na Guatemala buscam justiça
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de março de 1999
Por Ibon Villelabeitia, da REUTERS (assinatura obrigatória) 
San Francisco, Guatemala (AE-REUTERS) - Nesta remota e deserta vila cercada por montanhas cobertas por névoa e por ravinas profundas, uma equipe de cientistas está desenterrando um dos capítulos mais horríveis da sangrenta história da Guatemala.
Debaixo de um lençol de plástico num dia chuvoso recente, um time de jovens antropólogos trabalhava numa cova rasa repleta de crânios, ossos, roupas rasgadas - até mesmo com uma gaita. O homem e a mulher escavavam delicadamente através da recente sujeira com pequenas pás de jardineiro, procurando por ossos que eles mais tarde colocaram com cuidado numa vasilha ao lado. "Isto foi um completo massacre", disse Jose Suasnavar, coordenador de campo da Fundação Guatemalteca de Antropologia Forense (FGAF), que está cuidando da exumação.
Mais de 300 pessoas, incluindo famílias inteiras, foram mortas, provavelmente por uma patrulha do exército em um ataque sem motivos 17 anos atrás neste empobrecido assentamento cerca de 430 quilômetros ao norte da capital, a Cidade da Guatemala. "Aqueles que fizeram isso queriam apagar a vila inteira", disse Suasnavar. As amargas verdades que estão sendo desenterradas junto com os ossos em dezenas de exumações como esta são uma terrível lembrança do reino de terror e de assassinatos políticos que assombraram este país de 11 milhões de pessoas durante 36 anos de guerra civil entre o exército e rebeldes de esquerda que terminou em 1996.
No dia 25 de fevereiro, em um relatório sobre a guerra, uma comissão pela verdade culpou os militares por 93% de todos os massacres, torturas e desaparecimentos durante a guerra, na qual estima-se que 200 mil pessoas foram mortas. A Comissão de Esclarecimento Histórico culpou altos oficiais militares por atos de genocídio em 626 massacres durante o começo dos anos 80, quando a violência atingiu o pico. O aguardado relatório pediu ao governo que fizesse a exumação de centenas de cemitérios clandestinos que existiam no país como o que fica em Finca San Francisco.
Ativistas de direitos humanos e grupos de viúvas acreditam que as conclusões da comissão abrem uma porta para processar altos oficiais militares por atrocidades em um país onde a impunidade tradicionalmente prevalece. "A verdade foi dita, agora é tempo de fazer justiça", disse Aura Elena Farfan, da Associação Guatemalteca dos Detidos e Desaparecidos, chamada de Famdegua em espanhol, um importante grupo de viúvas da guerra. O grupo está provendo assistência legal para sobreviventes do massacre de Finca San Francisco. "Temos que continuar nossa luta para quebrar o muro da impunidade. É algo que devemos a nossos mortos", disse Farfan, cujo irmão desapareceu em 1984.
Não ficou imediatamente claro qual seria a resposta ao relatório dos chefes militares. O ministro de Defesa Hector Barrios disse a repórteres que o exército iria estudar o documento antes de chegar a conclusões. Apesar do fato de que desde 1973 o código criminal da Guatemala define o genocídio como crime, nenhum caso foi levado à justiça. Ao contrário da Bósnia, nenhum tribunal de crimes de guerra foi estabelecido na Guatemala. "Os massacres tocaram a ferida aberta do conflito armado da Guatemala", disse Guillermo Mendez, um advogado do Instituto de Defesa Pública Penal que escreveu uma tese sobre evidências forenses e exumações na Guatemala. "O estado não tem nem uma política criminal nem vontade política de investigar os massacres", ele disse.
Das 42 exumações que o time da FGAF fez a pedido de grupos de direitos humanos desde que ela foi estabelecida em 1992, apenas um caso foi a julgamento. Nele, um juiz sentenciou à morte três ex- membros de uma patrulha militar acusada pelo assassinato de 177 pessoas. Mas a sentença foi suspensa por uma corte de apelo no dia 25 de janeiro e um novo julgamento deve acontecer em breve.
O massacre de Finca San Francisco, como aqueles em centenas de outras vilas, seguiram um padrão macabro no qual civis eram aprisionados entre grupos de ataque rebeldes e patrulhas do exército. De acordo com testemunhos de sobreviventes citados nos documentos da Famdegua, cerca de 376 mulheres, crianças e homens foram massacrados na vila no dia 17 de julho de 1982 por uma unidade militar que procurava guerrilheiros. Os corpos foram então explodidos com granadas de mão e jogados em túmulos coletivos depois que todos as edificações foram totalmente queimadas.
Hoje Finca San Francisco é uma cidade fantasma, um pasto verde onde vacas andam entre as ruínas de uma igreja. O som de uma fonte da montanha enche o ar. A vila mais próxima, Yalambojoch, não tem eletricidade e a mais próxima estrada pavimentada fica a três horas de jipe. As mulheres têm dedos deformados de tanto trabalharem no campo e a maioria das crianças andam descalças e não frequentam a escola. "Minha mãe diz que meu pai e cinco irmãos foram enterrados aqui mas nós não sabemos onde", disse Felipe Perez, um rapaz de 17 anos que apareceu no sítio de escavação. Até agora, o time forense encontrou os restos de pelo menos 19 pessoas não identificadas em Finca San Francisco, incluindo partes de crânios de duas crianças com idades entre 6 e 8 anos. Os ossos serão estudados em um laboratório e os resultados levados a um juiz que irá decidir se abrirá ou não uma investigação oficial. Suasnavar disse será impossível identificar os corpos. Mas para Farfan e os grupos de direitos humanos a luta ainda está longe de terminar. A Famdegua irá erguer uma placa em Finca San Francisco para lembrar o massacre. "O governo nos vê como desestabilizadores, mas somos é famintos por justiça", disse Farfan. "Eles terão que nos matar para nos parar".


