Vítima do ciúme e do sentimento de posse
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de março de 2017
Simoni Saris Reportagem Local 

Desde o dia 8 de dezembro de 2016, Leonice Pereira de Carvalho convive com toda a dor gerada por um homem movido pelo ciúme e pelo sentimento de posse. Na manhã daquela quinta-feira, Marlon Augusto Salviano, de 24 anos, assassinou a facadas a filha mais nova de Leonice, Evelyn Gabriele Pereira da Silva, de 16 anos. O crime foi o desfecho trágico de um relacionamento que começou de maneira tortuosa, quando a vítima tinha apenas 12 anos.
Evelyn conheceu Marlon na casa de uma amiga de escola. Rapidamente os dois começaram a se relacionar e a menina chegou a ficar fora de casa durante cinco dias seguidos, na companhia do namorado. "Ele fez a cabeça dela e ela fugiu. Fui ao Conselho Tutelar, à Vara da Infância e Juventude e até registrei um Boletim de Ocorrência pelo desaparecimento dela. Nessa época não tinha conhecimento do envolvimento dela com o Marlon", disse a mãe, que se separou do marido quando Evelyn tinha 5 anos de idade e, desde então, criava as filhas sozinha, trabalhando das 8 às 18 horas.
Quando voltou para casa, Evelyn contou à mãe sobre o namorado e quis que os dois se conhecessem. Na época, o rapaz tinha 20 anos. "Não gostei dele porque achei ele muito moleque para a idade dele, não trabalhava, mas ela me desafiava para ficar com ele", recordou Leonice. Mesmo sem a aprovação da mãe, o casal foi morar junto. A mãe chegou a marcar médico para a filha para que ela pudesse usar anticoncepcional injetável, mas não deu tempo. Antes do dia da consulta, Evelyn já estava grávida.
Com a chegada do bebê, conta a mãe, Marlon demonstrava estar amadurecendo. Arranjou emprego como lixador em uma fábrica de móveis e o casal alugou uma casa no Jardim Maria Lúcia (zona oeste). Mas a vida responsável durou pouco. Logo ele deixou o emprego e o casal foi morar com a mãe de Marlon, no Jardim Santa Fé (zona leste). Foi aí que as brigas começaram.
"Minha filha não queria mais morar com a sogra, queria que ele arranjasse um trabalho, mas ele não queria trabalhar. Então ela veio embora morar comigo no Jardim Marabá (zona leste) e eu arrumei uns cursos para ela fazer e ela voltou a estudar. Ele vinha até minha casa, pegava no pé dela para voltarem, mas ela não queria e os dois discutiam muito", relembrou Leonice. "Ele não agredia e não ameaçava, pelo menos ela nunca me contou isso, mas tem muitas coisas que ela fazia e que eu só soube depois que ela morreu."
Leonice disse que chegou a pedir a Evelyn que não ficasse sozinha com Marlon em casa e imaginava que a filha acatasse seu pedido, mas após a morte da filha soube por uma vizinha que as visitas de Marlon durante o dia eram bastante frequentes. "Eu não queria ele dentro de casa porque eles discutiam muito, brigavam muito e eu não sabia o que ele poderia fazer, embora a Evelyn dissesse que não acreditava que ele fosse capaz de fazer alguma coisa de ruim com ela."
Uma semana antes do crime, contou Leonice, a filha parecia decidida a mudar o rumo de sua vida. Começou a se arrumar mais, fez escova progressiva e comprou roupas novas, e até foi a uma festa. Diversão que lhe custou a vida. "Ele soube que ela tinha ido à festa e não gostou. Disse para amigos que ia acabar com ela."
No dia 8 de dezembro, Leonice havia acabado de chegar ao trabalho, às 8 horas, quando recebeu um telefonema pedindo para que voltasse para casa. Quando chegou, os vizinhos a impediram de entrar em casa, onde a filha havia acabado de ser assassinada. "Ele foi a minha casa levando duas facas. Ela abriu a porta e ele fez isso. Ele até deu umas facadas nele mesmo, fingindo que queria se matar depois de ver a burrada que tinha feito, mas foram só perfurações superficiais. Quando eu cheguei em casa, ele estava na ambulância e minha filha morta. Meu neto, de 2 anos, viu tudo."
Três meses após o assassinato, Leonice aparenta força, mas confessa que os dias 8 de cada mês são de muita tristeza para elea. "Todo dia 8 lembro da morte da minha filha. Só não morri também e não estou em cima de uma cama, com depressão, porque tenho meu neto para criar. É por ele que mantenho a força."
Após a morte de Evelyn, o menino precisou de atendimento psicológico. "A psicóloga orientou a contar para ele que a mãe está no céu. Agora ele está bem, mas teve até de tomar calmante. Eu também tive de tomar calmante. Me corta o coração quando meu neto olha para o céu e diz que a mãe dele está lá, que virou uma estrelinha e lá de cima cuida dele."
Leonice entrou com um pedido na Justiça para obter a guarda do neto, que continua morando com ela, e Marlon está preso aguardando julgamento. "Soube que ele andou dizendo que está arrependido, mas arrependimento agora não adianta. Ele diz que amava ela, mas quem ama faz de tudo para conquistar a pessoa, não vai matar. Eu só quero que ele pague por tudo o que fez."


