Vítima de leucemia ganha 'seguro' de irmã
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sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Silvana Leão <br> Reportagem Local 
Maringá - Aninhada nos braços da mãe, a pequena Gabriela dormia tranquila na tarde de ontem, sete horas depois de vir ao mundo com 3,025 kg, alheia à importância de seu nascimento. Sua chegada não trouxe apenas a alegria comum ao nascimento de um filho. Ela poderá significar também uma nova chance de vida para seu irmão, Felipe, de um ano e nove meses, que sofre de Leucemia Linfoide Aguda (LLA).
Durante o parto de Gabriela, às 7h30 desta sexta-feira, no Hospital Paraná, em Maringá (Noroeste), foram coletadas células-tronco de seu cordão umbilical, que poderão ser transplantadas em Felipe, se houver compatilidade e o tratamento quimioterápico não resultar na cura da doença. A coleta de material genético para uso em irmãos, no Brasil, tem sido feito com alguma frequência em centros maiores, mas não é comum na região.
O garoto foi diagnosticado com leucemia há um mês e passou 25 dias hospitalizado. Há uma semana ele foi para casa, mas continua em tratamento rigoroso. ''O Felipe está reagindo bem aos quimioterápicos. São raros os casos de crianças em terapia que recebem alta em menos de um mês. Mas ele ainda está com a imunidade muito baixa, o que vai exigir muito cuidado por parte da família'', explicou a onco-hematologista infantil Alessandra Cristina de Oliveira Borges.
Segundo a médica, as chances de compatibilidade entre as células-tronco de Gabriela e Felipe são de 25%. ''Neste momento trata-se de uma alternativa muito importante, não podíamos perder esta chance. É uma espécie de seguro, que fazemos e deixamos lá. Se precisar, o acionamos.'' Alessandra foi responsável por pesquisar e encontrar uma empresa que pudesse fazer, gratuitamente, a coleta e armazenamento das células-tronco. O procedimento foi realizado por uma equipe da CordCell, de São Paulo, que mantém o projeto social ''Uma Esperança Preservada'', voltado a famílias que não têm condições financeiras para pagar pelo serviço.
Ontem à tarde a dona de casa Adriane Lopes Said Santana, mãe de Felipe e Gabriela, era um misto de felicidade e preocupação. ''Estou pensando em como o Felipe está, lá em casa'', dizia, enquanto fazia carinho na caçula. Adriane explicou que foi uma coincidência o filho ser diagnosticado com leucemia justamente durante sua gravidez. ''Logo pensamos na possibilidade de colher as células-tronco do cordão umbilical dela para tentarmos usar nele, mas não tínhamos ideia de como iríamos conseguir fazer isso. Nunca me interessei muito sobre o assunto, porque a gente nunca acha que este tipo de coisa vai acontecer conosco.''
Adriane ficou feliz em ouvir da enfermeira enviada especialmente para fazer a coleta que ''o material era muito bom''. Assim como a médica de Felipe, ela enxerga o procedimento como uma segurança a mais. ''Temos esperança de que as células sejam compatíveis.''
De acordo com o hematologista e hemoterapeuta Adelson Alves, diretor médico do CordCell, o resultado do teste de compatibilidade deve sair em um prazo de 15 a 20 dias. Diferentemente da hematologista de Maringá, ele afirma que a probabilidade de as células serem compatíveis chega a 47%. ''Este é um percentual muito alto, por isso a tentativa que estamos fazendo é extremamente válida'', argumenta.
Segundo Alves, o transplante de células-tronco obtidas do cordão umbilical é uma técnica já bastante utilizada em outros países. ''Cerca de 100 doenças do sistema sanguíneo já têm como rotina o tratamento com estas células e outras muitas doenças degenerativas já têm protocolos clínicos para isso. O sangue do cordão é muito valioso para ser jogado fora'', atesta o médico, que trabalha com terapia celular há mais de 30 anos.


