São Sebastião, SP, 22 (AE) - A auxiliar de vendas Andresa Godoi, de 18 anos, foi atacada por um rottweiler em Maresias, no final de janeiro, e registrou a ocorrência de número 377/00, assinada pelo delegado adjunto José Luiz Tibiriçá do 2º Distrito Policial de Boiçucanga. Porém, o delegado titular Leon Nascimento Ribeiro negou a existência, em sua delegacia, de qualquer registro de mordida de cão nas praias do litoral norte. "Fui agredida violentamente por aquele cachorro que estava solto na praia, sem coleira, acompanhado do caseiro", diz Andresa.
O cão Catique que a atacou é acusado de ter atacado agredido outras pessoas na praia. "A mentalidade do dono do cachorro é uma coisa cruel", diz o salva-vidas chefe da praia de Maresias, cabo Paes. "Ele se preocupa com o bem estar do cachorro mas não se preocupa com a saúde do banhista. Se um cachorro de raça morder alguém, a primeira justificativa que se ouve é que o cachorro só atacou porque foi provocado", diz o salva-vidas. O cabo já foi mordido por Catique e afirma ter visto o animal atacar pelo menos outras dez vezes. "Ele ataca por qualquer razão. Um adulto, com certeza, ele mata. Uma criança então..."
O empresário Walder Rocha Veloso, mais conhecido como Dinho, dono de uma boite em São Paulo e de Catique, nega as agressões. "Acho um absurdo estas pessoas denunciarem um cachorro como o meu porque ele quase não sai de casa, só às 6 horas da manhã e às 7 da noite, quando já não tem muita gente na praia", afirma o empresário. Segundo ele, Catique só ataca se for provocado. "Por que estas pessoas não vêm reclamar comigo? Não tenho recebido reclamação alguma?", pergunta.
Ataque - Segundo Andresa Godoi ela perguntou ao caseiro: Esse cachorro morde? Para Catique, a resposta soou como uma ordem: Morde! E ele avançou rápido. Uma mordida na perna direita de Andresa que lhe custou 15 dias sem se locomover, gastos de R$ 150,00 em remédios, pesadelos diários e um sentimento de impotência muito grande. O episódio aconteceu no dia 23 de janeiro, um domingo, quando Andresa, seu namorado e alguns amigos tomavam sol na praia de Maresias.
"Pensei que o cachorro fosse estraçalhar a minha perna. Jorrava muito sangue. Não conseguia mexer, muito menos levantar a perna". O cachorro estava com o caseiro. Ao ver a cena, o dono deu um grito para que Catique largasse a perna de Andresa. O rotweiller obedeceu e saiu correndo. Andresa chegou a ser socorrida por Dinho que a convenceu a não fazer a denúncia de imediato, após o atendimento no Pronto-Socorro.
O empresário assegurou que ela seria ressarcida em absolutamente todos os seus gastos com os possíveis danos físicos e psicológicos que sofrera. Andresa afirma que nunca recebeu nenhuma ajuda. Segundo ela, assim que Dinho soube que estava dando entrevistas à Agência Estado sobre o caso, recebeu telefonemas da mulher dele. "Ela tentou me subornar com dinheiro e disse que não sabia o que tinha acontecido antes, acusando a sua empregada por não ter feito o depósito que solicitei para comprar remédios", diz ela.
"É tudo mentira", afirma Dinho. Segundo ele, a secretária que não fez o depósito foi demitida. "Ela quer dinheiro? Eu dou dinheiro a ela. Agora, denunciar um inocente é demais". Andresa, segundo avaliação médica, vai precisar fazer uma ou duas operações plásticas para que não fiquem sequelas em sua perna. Ela diz que não sabe como vai fazer, pois com uma renda mensal de R$ 500,00, não conseguirá arcar com este tipo de gasto.
Além dos danos psicológicos gerados pela situação, Andresa diz conviver com constantes pesadelos durante a noite. "Talvez com um tratamento terapêutico eu consiga, ao longo do tempo, superar esta história", avalia ela que chegou a solicitar de Dinho estes custos por um certo tempo. A resposta dada pela mulher de Dinho, Silvia, segundo Andresa foi a promessa de pensar em pagar a plástica e o tratamento psicológico se a reportagem não saísse. Risco - Com aproximadamente 100 quilos e 1,70 metro de altura, em pé - o dobro do tamanho de um rottweiler normal - o cachorro vem aterrorizando a vida dos banhistas, desde 95, quando Dinho construiu uma mansão que ocupa quase um quarteirão na Rua da Passagem, naquela praia. No comércio local todos conhecem Catique e seu dono e acusam o cachorro de vários ataques. O dono de Catique diz que é tudo mentira.
"Meu cachorro nunca mordeu ninguém", afirma Dinho. Segundo ele, há cinco anos que passa férias e viaja quase sempre nos fins de semana para a casa de praia e nunca aconteceu nada. Ele faz um desafio para que as pessoas provem as denúncias. "Garanto que ninguém prova nada", diz ele. Entretanto, admite que no final de janeiro ocorreu um caso por descuido seu e da mulher. "Estávamos dormindo quando o cachorro pulou o muro e saiu. O caseiro foi atrás, mas a vítima o provocou ao passar a mão na cabeça dele", diz o empresário falando de Andresa.
Verdade - O diretor do Pronto-Socorro mais próximo, o de Boiçucanga, Léo Jardim, diz conhecer o cachorro e as histórias de suas vítimas, mas prefere não detalhá-las por uma questão de ética. O médico lembra do caso de Andresa Godoi. "Todas estas histórias são mais do que verdadeiras. São histórias de pessoas que sofreram e sofrem com os traumas de um ataque de uma cachorro daquele porte", diz Jardim.
Apesar de não assumir nenhuma dessas histórias, com exceção a de Andresa, Dinho admite que não levará mais seu rottweiler Catique, à praia, para que não seja mais importunado com "denúncias infundadas". "Você tem cachorro? Se tivesse saberia que ele é como se fosse um filho para nós. Não consigo dizer ao meu filho para ele não ir à praia", diz o Dinho. Mas eu não vou submeter Catique a mais desgastes. Não vou levá-lo mais para a praia", afirma ele.
Briga - A prefeitura acusa o Estado de não colaborar na construção de um Centro de Zoonose para tratamento dos cães, e também nos casos de desparecimento dos Boletins de ocorrência. O Estado, por sua vez, acusa a prefeitura de não cumprir o seu papel básico: o de fiscalizar os transgressores de sua própria lei.
O prefeito João Augusto Siqueira diz que tem tentado conscientizar as pessoas "a exaustão" para que não levem seus cachorros à praia para evitar a transmissão de doenças e a agressão a banhistas. No entanto, admite que em caso de apreensão do cachorro, não tem para onde levar o animal.
"Meu cachorro come filé mignon e dorme na minha cama", disse a dona de um pit bull que passeava na praia de Boiçucanga no dia 16 de janeiro, quando foi abordada pela fiscalização, segundo relato do prefeito de São Sebastião.

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