Arquivo FolhaDuas mil famílias ocupam a fazenda desde abril de 96

A superintendente regional do Incra no Paraná, Maria de Oliveira, pretende iniciar já na semana que vem a vistoria nos 62 mil hectares da Fazenda Pinhal Ralo (em Rio Bonito do Iguaçu, sudoeste do Estado), reivindicados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), que já conseguiu a desapropriação de 16,7 mil do total de 81,9 mil hectares da fazenda, de propriedade da Giacomet-Marodin Reflorestadora. Os outros 3,2 mil hectares são parte da reserva de mata nativa, que o MST ‘‘abre mão’’ de reivindicar.
Maria de Oliveira espera concluir até sexta-feira a montagem da comissão de 23 técnicos que vão vistoriar a área para definir se toda a terra é passível de desapropriação para reforma agrária. ‘‘Queremos trabalhar com um número grande de técnicos para apressar o laudo final’’, diz a superintendente.
Nenhum representante da Giacomet-Marodin foi encontrado ontem para comentar o acordo fechado sexta-feira entre o Incra e o MST, prevendo a vistoria da nova área reivindicada pelos sem-terra em troca da suspensão de novas invasões no Paraná até o dia 15 de março.
A superintendente do Incra disse não esperar qualquer resistência da empresa para autorizar a vistoria dos 62 mil hectares, embora a direção da companhia já tenha manifestado que não quer vender toda a área. A Giacomet-Marodin aceitou vender apenas os 16 mil hectares ocupados parcialmente pelos sem-terra em abril de 1996.
A superintendente regional do Incra não duvida do cumprimento pelos sem-terra do acordo assinado sexta-feira, que os impede de dar prosseguimento ao cronograma de invasões, que inclui uma ação no Norte do Estado que o movimento antecipa como ‘a maior do País’. ‘‘Difícil foi sair o acordo, cumprí-lo é fácil’’, disse Maria de Oliveira.
O interesse dos sem-terra sobre a totalidade da Fazenda Pinhal Ralo veio depois que o Ibama cancelou projeto de manejo sustentado de 30 mil hectares de florestas nativas, o que, na visão do MST, tornaria a área passível de desapropriação. A Giacomet-Marodin tem também projetos de reflorestamento na propriedade.
O coordenador de terras da Secretaria Estadual do Meio-Ambiente, José Carlos Vieira, acha que ‘‘se não houver cautela’’ o acordo assinado sexta-feira pode complicar as relações entre as duas mil famílias que ocupam a Fazenda Pinhal Ralo e o Incra. ‘‘O acordo pode criar nos sem-terra expectativas não realizáveis’’, disse.
Vieira diz que quinta-feira - antes, portanto, da reunião em que se assinou a ‘trégua’ entre o Incra e os sem-terra -, num encontro entre representantes do Incra, Ibama, Iap, Sema, MST e Ministério Público (MP) ficou acertado que todos aguardariam manifestação do MP sobre o cancelamento pelo Ibama do projeto de manejo sustentado da Giacomet-Marodin. O promotor Marcos Fauler, que teria se comprometido a dar a posição do MP sobre a questão, não pôde atender a Folha até o final da tarde de ontem.
‘‘O cancelamento do projeto de manejo não significa que a área está disponível para desapropriação’’, afirma Vieira. Ele disse que vai recomendar ao secretário estadual do Meio Ambiente, Hitoshi Nakamura, que não indique representante para a comissão de vistoria até que o MP se manifeste sobre a questão. ‘‘Não sabemos sequer a extensão da área envolvida no cancelamento do projeto’’, disse.
De acordo com Vieira, a preocupação da secretaria é com a mata nativa do Paraná, que, segundo ele, se limita a 5% do território do Estado e é bastante extensa na Fazenda Pinhal Ralo.

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