Londrina - Casa de carnes, mercearias, bares, comércio de DVDs e CDs, igrejas, sacolão e oficina mecânica. O Residencial Vista Bela, localizado na Zona Norte de Londrina, proporciona toda essa gama de comércio e serviços para os moradores contemplados pelo programa habitacional Minha Casa, Minha Vida. O problema é que todos esses estabelecimentos funcionam em imóveis destinados a moradia das pessoas e que não podem sofrer desvio de função.
A condição que impede o desvio de função está explícita na primeira e na 12 cláusula do contrato que os moradores assinaram com a Caixa Econômica Federal. Em caso de descumprimento, o banco prevê que a dívida será considerada antecipadamente vencida e imediatamente exigível, após prévia notificação.
O contrato deixa claro também que nem a reforma dos imóveis poderia ter sido feita sem a autorização da Caixa, uma vez que a modificação do imóvel pode afetar a estrutura da edificação.
A reportagem passou pelo residencial e constatou que existem imóveis que foram reformados para abrigar estabelecimentos comerciais. No açougue a estrutura é semelhante à de qualquer outro bairro, com uma pequena câmara fria e um balcão frigorífico. Na mesma rua encontramos um sacolão, uma igreja presbiteriana, uma oficina mecânica e em vários pontos é possível verificar a existência de bares.
Segundo um entregador de uma distribuidora, só a empresa deles comercializa cerca de 400 engradados de cerveja por mês no Vista Bela. ''Sabemos que existem outras distribuidoras que atuam no bairro'', relata o funcionário.
Para a moradora Alexandrina Silva, no entanto, deveria haver uma fiscalização maior contra o funcionamento desses estabelecimentos. ''A existência de um bar desvaloriza o imóvel vizinho, porque ninguém quer morar ao lado'', reclama. Há também uma mercearia com padaria que possui gôndolas com os produtos básicos de consumo disponíveis em qualquer supermercado. A reportagem encontrou até uma casa que comercializa CDs e DVDs piratas.
Os proprietários dos estabelecimentos comerciais não quiseram dar entrevistas. Alegaram ter medo de perder os imóveis onde trabalham.
Os moradores afirmam que, ao se construir o residencial, não houve preocupação com quem moraria lá. A reclamação mais frequente é de que não existem escolas, creches, postos de saúde, hospitais ou farmácias e o comércio não atende as necessidades da população. Eles falam que se retirarem o comércio ilegal dali, não haveria como viver com os rendimentos do Bolsa Família, uma vez que seria preciso gastar parte do salário apenas com o deslocamento para ir a supermercados na Avenida Saul Elkind.
''Aqui falta tudo. A sorte é que eu trabalho no Centro de Londrina e aproveito para comprar as mercadorias por lá. Caso contrário teria que gastar nesses mercados daqui'', relata a diarista Roselange dos Santos.

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