Paris, 14 (AE) - Que o chefe de um país de mais de um bilhão de habitantes (Jiang Zemin) vá visitar um país de 5 milhões de habitantes (Israel), minúsculo ainda por cima, e que essa visita dure seis dias e meio, é de causar espanto.
O espanto é ainda maior se acrescentarmos que o mesmo Zemin vai depois à Palestina, onde ficará apenas um dia. Ora, nem sempre foi assim: em 1964, a China foi um dos primeiros países a apoiar a criação da OLP, e em 1988, Pequim reconhecia a independência palestina. Nessas datas, as relações entre Pequim e Tel Aviv não eram muito calorosas: a China só reconheceu Israel em 1992, e em 1988, Pequim denunciava Israel como um "bastião do imperialismo".
O primeiro-ministro Ehud Baruak tem do que se orgulhar: no espaço de algumas semanas, recebe solenemente dois dos chefes de Estado mais poderosos do mundo, e que por muito tempo se mostraram ora hostis, ora desconfiados em relação aos judeus: o papa João Paulo II no "muro das lamentações", e hoje, o chinês Zemin.
Juang Zemin faz tudo para dar brilho a esse encontro. Chega até a conferir a mesma importância, na história, a Israel e à China.
Cumprimentou o povo que produziu gigantes como Karl Marx e Albert Einstein.(Ele não citou um terceiro "gigante" judeu: Franz Kafka. É verdade que Kafka em seus romances - O Processo ou o Castelo - parecia descrever de forma profética a burocracia glacial à qual deu origem a grande esperança de outubro de 1917. Mas talvez Zemin não leia Kafka).
Comunhão portanto cultural entre os dois países. E, sob a cultura, como sempre, as finanças e a economia. E as armas. Na verdade, o ponto-chave das relações comerciais entre Tel Aviv e Pequim é um avião que os israelenses venderam aos chineses. Não se trata de um avião qualquer.
É um Ilyouchine-76 (russo) que os israelenses, mestres em tecnologia sofisticada, transformaram em avião-espião, equipando-o com um radar eletrônico Falcon. Esse aparelho, que foi vendido a Pequim por 250 milhões de dólares, é um concorrente direto do sistema americano Awacs.
Os chineses pretendem comprar mais três aparelhos desse tipo.
Não é de admirar que os americanos estejam zangados: o mais poderoso aliado de Israel não consegue entender o fato de Jerusalém oferecer tal instrumento à China. Sabemos que, entre Estados Unidos e China, a desconfiança é crônica. Principalmente neste momento, com as tensões que opõem a China continental à ilha de Taiwan (Formosa), tensões essas que podem provocar um conflito entre essas duas porções de China, no qual evidentemente os americanos, protetores de Taiwan, teriam que intervir. Nesse caso, o avião-espião fornecido por Israel se tornaria, portanto, uma arma de guerra contra Taiwan e seus aliados americanos.
Isso não é tudo: os especialistas pensam que esse avião-espião dissimula outra operação: o projeto de cooperação estratégica entre Israel (alta tecnologia) e a China, que chega até ao desenvolvimento de um avião de caça F-1O e de um submarino no valor de vários bilhões de dólares.
Esses números causam vertigens quando relacionados a um país do tamanho de Israel. É aliás o que argumentam alguns: nessa questão, Jerusalém não tem absolutamente intenções geo-estratégicas escusas em relação à China. Para Israel, trata-se de uma simples operação comercial, de um mercado gigantesco no qual o Estado judeu pode, graças a seus talentos, introduzir-se.
A essa alegação é fácil responder que alguns intercâmbios comerciais quando se referem a armas possuem uma incidência política. É o que dizem alguns senadores americanos que lembram secamente que, afinal de contas, Israel recebe uma ajuda militar americana de 1,8 bilhão de dólares.

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