de Sandovalina e São Paulo
A União Democrática Ruralista (UDR) teme que a visita do ex-presidente do PT Luiz Inacio Lula da Silva, domingo, ao Pontal do Paranapanema (extremo-oeste de São Paulo) incite os sem-terra a uma nova invasão. A preocupação foi demonstrada ontem pelo diretor-financeiro da entidade ruralista, Antonio Renato Prata. Ontem, o governo federal repassou ao Estado 15.300 hectares que serão destinadas ao assentamento de 637 famílias na região.
Lula participa, no acampamento da usina de Taquaruçu, em Sandovalina (640 quilômetros a oeste de São Paulo), de ato contra a prisão do dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Marcio Barreto e pelo relaxamento da prisão preventiva de outros quatro líderes foragidos - entre eles, José Rainha Jr.
Os cinco tiveram prisão preventiva decretada pela Justiça na segunda-feira, por terem quebrado fiança concedida anteriormente, ao tentar invadir a fazenda São Domingos. Além de Lula, são esperados o senador Eduardo Suplicy e os deputados José Genoino Neto e Luiz Eduardo Greenhalgh, todos do PT. Depois do ato, eles visitam Barreto na cadeia de Presidente Prudente e dois dos oito sem-terra feridos à bala na tentativa da invasão.
O filho do fazendeiro, Manoel Domingos Neto, e quatro seguranças da fazenda continuam presos, acusados de tentativa de homicídio. Na quarta-feira, o presidente da UDR no Pontal, Roosevelt Roque dos Santos, disse que solicitaria ao comando da PM que destacasse policiais para fazer segurança na área. Anteontem, um carro com quatro PMs e três cães se instalou na sede da fazenda.
O comandante da PM na região, coronel João Ferreira de Souza Filho, não revelou se haverá esquema especial para o final de semana, quando costumam ocorrer invasões.
Durante toda a semana, dirigentes do MST disseram que os acampados vão colher os 280 alqueires de milho plantado na fazenda, sem revelar data. Ontem, a movimentação de policiais na área já era maior que nos dois dias anteriores nas imediações do acampamento, que fica em frente à fazenda. A operação da PM envolvendo 120 homens foi desmontada na terça-feira.
Ontem, 116 pessoas, entre acampados e assentados, foram à delegacia de Teodoro Sampaio prestar queixa, em boletins de ocorrência, contra a PM e o delegado de Sandovalina, Marco Antonio Scaliante Fogolin, por suposto abuso de autoridade. Foram feitos quatro boletins em nome de todos. Os policiais são acusados de entrar nos barracos do acampamento Taquaruçu e em casas dos assentamentos São Bento e Santa Clara, em Mirante do Paranapanema, à procura dos líderes foragidos do MST, sem mandado de busca.
O coronel Souza Filho disse que dispunha de ordem judicial para a ação. O delegado Fogolin - acusado também pressionar com arma um sem-terra para entregar os líderes foragidos - não se manifestou. O MST juntou procurações das supostas vítimas para mover ação contra a PM e o delegado.
Treze fazendas da região do Pontal do Paranapanema, arrecadadas para reforma agrária, foram passadas na tarde de ontem ao governo do Estado, segundo informou o secretário-adjunto de Justiça, Edson Vismona. Todas as fazendas, que somam 15.300 hectares, foram negociadas pelos seus antigos proprietários com o Estado depois de uma série de invasões feitas pelo MST desde 1991. Nos últimos anos, o governo entrou na Justiça para recuperar a posse das terras, consideradas devolutas (pertencentes ao Estado apesar de estarem há anos ocupadas por particulares). A Justiça acatou a tese e o Estado precisou pagar apenas as benfeitorias (casas, cercas, currais etc) feitas pelos fazendeiros. Cerca de R$ 10 milhões, que foram repassados pelo governo federal.
Igreja - O porta-voz da Presidência, Sergio Amaral, afirmou ontem que o governo não condena o apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) à marcha do MST a Brasília. Segundo Amaral, esse apoio é um assunto do ‘‘órgão’’ católico. ‘‘O governo não tem nada contra os sem-terra, tem sim contra a violência’’, disse Sergio Amaral.
A Igreja Católica vai mobilizar cerca de 500 pessoas de entidades e escolas religiosas de Brasília para receber os sem-terra que participam da Marcha Nacional pela Reforma Agrária, Emprego e Justiça. A marcha dos sem-terra deve chegar a Brasília no dia 17 de abril, quando será completado um ano do massacre de 19 sem-terra em Eldorado de Carajás (leste do Pará) pela Polícia Militar.

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