Violência urbana mata mais jovens do que as guerras
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segunda-feira, 09 de setembro de 2002
Lucia Martins<br> Agência Estado 
No mesmo período em que morreram 467 menores israelenses e palestinos, o Rio teve 3.937 mortes de pessoas com menos de 18 anos
Rio de Janeiro - A violência urbana no Rio mata mais crianças do que os conflitos em países em guerra civil, como Israel, Colômbia, Afeganistão e Serra Leoa. Este é o resultado de um estudo divulgado ontem por pesquisadores do Instituto de Estudos Superiores da Religião (Iser). Entre novembro passado e junho deste ano, eles visitaram três favelas da cidade, entrevistaram centenas moradores e compararam estatísticas de assassinatos com as de outros países.
Entre as comparações, a mais surpreendente é com Israel. Entre dezembro de 1987 e novembro de 2001, 467 menores israelenses e palestinos morreram no conflito nos territórios ocupados. No mesmo período morreram 3.937 pessoas com menos de 18 anos na cidade do Rio.
''A cidade do Rio não está em guerra porque o traficante não quer ocupar o lugar do Estado, ele só quer ganhar dinheiro, mas o nível de violência é muito grande'', explica o inglês Luke Dowdney, que coordenou a pesquisa. ''Apesar de não ser uma guerra, a violência tem tudo de guerra. Nosso desafio é tentar explicar o que acontece'', diz Michel Misse, outro pesquisador do Iser.
O levantamento mostrou a escalada de homicídios de crianças cariocas nas últimas décadas. Em 1979, a taxa de mortes de menores de 18 anos era de 5,4 casos por 100 mil pessoas (88% causados por armas de fogo). Em 2000, o índice foi de 23 casos por 100 mil (87,2% provocadas por armas). O estudo mostrou ainda que as faixas etárias mais afetadas são dos 13-14 anos e 15-17 anos.
Nos dois grupos os jovens correm mais riscos de morrer por tiros do que os adultos com mais de 24 anos o grupo de 15-17 anos é o mais ameaçado. ''À medida em que as crianças que trabalham no tráfico ficam mais velhas, estão armadas com maior frequência e, consequentemente, mais envolvidas em conflitos, por isso morrem baleadas em ritmo drasticamente maior'', diz o estudo.
A pesquisa também comparou os índices de mortalidade de jovens cariocas com as taxas de Nova York, Washington e Califórnia. Em 1999, a cidade do Rio tinha um índice quase seis vezes maior do que o do Estado da Califórnia - 12,6/100 mil para 2,9/100 mil. As taxas de Washington e Nova York ainda eram menores, de 1,8/100 mil e 1,3/100 mil, respectivamente.
O perfil do menor que trabalha para o tráfico, segundo o estudo, em muitos aspectos se assemelha aos da criança que vive em um país em guerra. Ele é muito jovem (a média de idade de quem começa a trabalhar para o tráfico é de 13 anos), é remunerado e faz parte de uma estrutura organizada de violência, com hierarquia militar.
Além disso, esses jovens usam armas poderosas e trabalham em ações que podem ser consideradas de guerra, como defesa de território, invasão de áreas alheias e troca de tiros (com a polícia ou outras facções criminosas).
A intenção dos pesquisadores do Iser é que o estudo sirva para o Brasil e a comunidade internacional buscarem formas de evitar que a criança se aproxime do crime e que se encontrem mecanismos para defendê-la dos assassinatos é a ampliação de projetos sociais que ofereçam alternativas reais para que menores que vivem em comunidades carentes não sejam atraídos para o tráfico. ''Eles escolhem trabalhar para o tráfico, mas a verdade é que as opções dessas crianças não são muitas.''


