Londrina - Há um mês, uma casa lotérica dentro de um shopping na zona oeste de Londrina foi invadida por bandidos e os funcionários feitos reféns. Somente este ano, um posto de combustível na zona norte já foi assaltado à mão armada três vezes. Em todas, uma mesma funcionária, que trabalha no caixa, estava presente. Um corretor teve o carro levado recentemente, após ser abordado por bandidos armados, também na zona oeste. Essas pessoas não se conhecem, mas têm em comum o fato de serem vítimas da violência urbana. Presente, sobretudo, nos grandes centros, a violência não mais distingue endereço, gênero ou classe social. Isso mostra que toda população está vulnerável e pode, a qualquer momento, engrossar as estatísticas da polícia.
As causas apontadas por especialistas são inúmeras, como aumento do consumo e tráfico de drogas, desigualdade econômica e social, escassez de projetos educativos e ineficiência do Estado na segurança e prevenção. Mas e o outro lado? Além de mais um número, há as vítimas envolvidas. Como ficam após passarem por esse tipo de situação? Algumas vezes, os bens materiais são recuperados. Porém, o bem maior, que é a saúde mental, dificilmente é resgatado. Os traumas e os medos, ainda que leves, também persistem na memória.
Para Sidney de Oliveira, coordenador do curso de Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), doutor em Educação, que trabalha com Direitos Humanos no Núcleo de Estudos da Violência da instituição, explica que cada indivíduo reage de maneira distinta depois de passar por uma situação traumática. "O trauma é como uma grande ferida ou como as perdas da vida. O ser humano aprende a viver com isso de alguma forma para seguir adiante, mas é um erro achar que o problema foi superado. Há ainda os casos extremos em que é preciso intervenção médica ou medicamentos e outros que parecem não ter acontecido nada."
De maneira a se defender da situação de violência – tendo ela acontecido com a própria pessoa ou não, segundo o professor, alguns tendem a desenvolver um distanciamento das outras pessoas e empobrecimento das relações. "Recusam-se a ter ligações mais profundas. Deixam de sair de casa com medo que a violência se repita, por exemplo." Questionado se existe uma neurose da violência, ele comenta que o problema está em como é construída essa neurose. "Trancado em casa é que a situação não vai se resolver. Há de haver um bom-senso e prudência para avaliar algumas questões, como situações reais de exposição ao perigo", completa.
A psicóloga Fabiane Moraes, do Instituto Innove, de Londrina, comenta que não raras vezes as vítimas pessoas chegam a desenvolver transtornos de estresse pós-traumático. "Quem ficou exposto a uma situação de muita agressividade pode apresentar sintomas de ansiedade, episódios de pânico e, até mesmo, depressão. Obviamente, a violência urbana não é o único fator, mas é um dos que contribuem com o aparecimento desses transtornos. Há ainda os fatores biológicos, ontológicos, sociais e culturais", explica, destacando que mesmo pessoas que não tenham sido vítimas diretas da violência podem ter os sintomas, já que se sentem expostas a uma situação que não podem controlar.
Com o comportamento apreensivo, de acordo com ela, pais também repassam o sentimento de insegurança aos filhos. "Por conta da criação, de uma série de restrições e recomendações, crianças também já apresentam sintomas de ansiedade extrema." Por isso, é tão importante a avaliação desse padrão de comportamento, principalmente quando começa a afetar a vida da pessoa. "Se for o caso, o médico deve avaliar a necessidade de medicação. Terapia é recomendada para aprender a lidar com a situação e para adquirir resistência a situações de tensão. Não existe uma cura, mas amenização dos sintomas", comenta.

Leia também:


- 'Me considero uma pessoa paranoica'


- 'Não há muito o que possamos fazer'

mockup