Rio, 09 (AE) - A morte de policiais não é o preço necessário do trabalho corajoso e eficiente. Com essa certeza, as antropólogas Jacqueline Muniz e Bárbara Musumeci Soares mapearam a violência contra os policiais do Rio entre 1993 e 1996, chegando a uma conclusão estarrecedora: morrem 27 vezes mais policiais no Estado do que em Nova York, comparando-se os anos mais críticos nos dois locais. Concluído em 1998, o levantamento foi feito a pedido da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), do Instituto Superior de Estudos da Religião (Iser) e do Ministério da Justiça.
"A vitimização contra policiais assumiu cores dramáticas, inaceitáveis, e a razão do nosso esforço é reverter a situação", diz Jacqueline, que desde janeiro é diretora de Assuntos Especiais da Secretaria da Segurança Pública. Ela acompanhou o dia-a-dia dos policiais, até mesmo em rondas, para traçar o mapa da violência contra a categoria. Em 1995, ano em que foi possível cruzar os dados de vitimização de PMs com os da população em geral, constatou-se que policiais morrem seis vezes mais que outros profissionais. Em cada 10 mil, 38,85 foram mortos - 26,85 na folga. Entre a população, o número foi de 6 63. No mesmo ano, 256,45 PMs sofreram lesões corporais dolosas em cada grupo de 10 mil, ante 26,29 outros profissionais.
O índice de suicídio, em 1995, foi sete vezes maior entre PMs do que no restante da população: 2,59 em cada 10 mil policiais, ante 0,34. "A PM acabou ganhando mais destaque na pesquisa por estar mais exposta à violência e por ser numericamente mais expressiva", explica Jacqueline. Em 70% dos casos em que policiais foram feridos ou mortos durante o período pesquisado, não houve vítimas civis (não-policiais). Dessas ocorrências, 14,9% envolveram mais de um PM e 55,1%, apenas um policial. Estavam em serviço 48% dos PMs vitimados. "Uma pessoa em seu ambiente de trabalho tem de estar regida por normas de segurança", diz Jacqueline.
A pesquisadora atribui o aumento da violência em serviço à premiação por bravura instituída no governo Marcello Alencar (1995-1998) - os policiais tinham acréscimo de 50% a 150% do salário por supostos atos de coragem. A chamada "gratificação faroeste" elevou a morte de policiais para 22 homens em serviço para cada 10 mil, em 1996. Nos dois anos anteriores esse número foi de 12 e 13. "Essa premiação individual comprometeu o trabalho em equipe e a hierarquia, já que havia subordinados ganhando mais que superiores, e induziu policiais à sensação de fracasso, porque aqueles que passavam o dia impedindo crimes, sem ações circenses, não eram condecorados", diz Jacqueline.
Em 1993, a cada PM assassinado, foram feridos 17,25. No crítico ano de 1996, a taxa piorou. Para cada policial militar morto, houve 9,68 feridos. A antropóloga alerta para a necessidade de políticas preventivas antiestresse. "Polícia é atividade altamente sofisticada, em que se lida com o pior das pessoas, com todo o tipo de drama humano". Cerca de 6% das licenças concedidas para afastamento do trabalho partiram da clínica psiquiátrica. Dos policiais considerados incapazes para o trabalho, 16,9% apresentavam problemas psicológicos.

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