Londrina – Uma pesquisa realizada pela ActionAid em seis cidades de quatro Estados apontou os principais tipos de violência e vulnerabilidade que as mulheres sofrem por causa de serviços públicos de má qualidade. A ActionAid, fundada em 1972, é uma organização sem fins lucrativos cujo trabalho atinge 20 milhões de pessoas em 45 países. No Brasil, a atuação começou em 1999. A partir do levantamento foi lançada a campanha Cidades Seguras para as Mulheres.
Foram ouvidas 306 mulheres em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Rio Grande do Norte entre setembro e outubro de 2013. O medo da violência ou de assédio, segundo 70,6% das entrevistadas, mudou a rotina e fez com que essas mulheres deixassem de sair de casa em determinado horário e se divertissem (50%). Outras 57% responderam que foram assediadas ou cantadas na rua, porém só 5% formalizaram uma denúncia.
A pesquisa ressalta que a má qualidade do transporte público, iluminação, educação, policiamento e moradia afetam diariamente a vida de milhões de mulheres. Os dados apontaram que 51% das mulheres opinaram que a iluminação pública das cidades é ruim ou péssima e 68% deram a mesma nota para o policiamento. Mais da metade respondeu que sofreu assédio policial e 48% relatou ter medo da polícia.
"Esses problemas impedem a mobilidade dentro do próprio bairro. Algumas mulheres chegam a levar lanternas dentro das bolsas. Uma das nossas ações é o ‘lanternaço’, onde caminhamos para identificar as áreas precárias", relatou Gabriela Pinto, assessora de Programas da ActionAid.
A vida urbana assusta as mulheres. As paradas de ônibus, vias, praças e becos foram apontadas como os lugares mais inseguros, enquanto a residência foi apontada como a mais segura. Mais de 40% revelaram ter sofrido assédio dentro de ônibus e 39% mudaram a forma de se vestir para chamar menos a atenção. Melhorar a iluminação pública foi o item mais citado (37%) como uma das formas de aumentar a segurança.
"As mulheres violentadas ainda são muito estigmatizadas pela nossa sociedade machista, além de se sentirem culpadas. A nossa legislação tem que evoluir para punir não só a violência doméstica contra as mulheres, mas também a que acontece em locais públicos", frisou Gabriela.
Do total de mulheres entrevistadas, 80% têm entre 22 e 25 anos, 61% são negras, 60% trabalhavam e 30% eram dona de casa.
A doméstica Kelly Ferreira, de 28 anos, critica a iluminação pública e o pouco policiamento e revela que tem medo de sair sozinha. "Dependendo do lugar, se não tiver companhia não vou. E tem muita gente que age da mesma forma", apontou. A estudante Kimberli Rodrigues, de 19, tem receio de ser seguida nas ruas. "Evito usar uma saia curta, um salto alto, para não chamar tanta atenção. No ônibus, a preocupação é com os homens que passam se esfregando na gente", contou.
Para a dona de casa Silvany dos Santos, de 25, há mais sensação de segurança hoje do que no passado, mas ressalta que tem receio de usar certas roupas em determinados lugares. "Tem muita mulher que precisa se valorizar também, muitas acabam provocando um pouco", relatou a moradora do Conjunto União da Vitória, zona sul de Londrina.

Imagem ilustrativa da imagem Violência e assédio mudam rotina de mulheres