Vinho pode ganhar status de alimento funcional no Brasil
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sexta-feira, 01 de setembro de 2006
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba- A Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou, esta semana, um projeto de lei que muda o status do vinho naquele Estado, de bebida alcóolica para alimento funcional. A mudança é reivindicada há pelo menos dois anos por produtores do setor de todo País, que têm interesse na redução de impostos que isso vai acarretar. A colocação do vinho como ''alimento funcional'', no entanto, não foi definido em função de ganhos econômicos, mas sim pelas supostas características benéficas à saúde atribuídas ao produto.
''Esse é o primeiro passo para transformar o vinho como alimento a nível nacional'', comemora Giórgeo Zanlorenzi, da Vinícola Campo Largo e representante no Paraná da Associação Nacional dos Engarrafadores de Vinho (Anev). Em Brasília há dois projetos de lei em tramitação com igual teor. Um é do senador Pedro Simon (PMDB/RS). Outro é do deputado Paulo Pimenta (PT/RS). As matérias tramitam no Senado e na Câmara Federal, mas não têm data para ir a plenário. Se forem aprovadas, estenderão ao País inteiro a mudança já aprovada no Rio Grande do Sul.
O médico cardiologista Antonio Augusto de Arruda Silveira Junior é contra a mudança. ''Teoricamente o vinho é benéfico, mas na prática isso não se observa'', diz. Ele explica que o produto tem propriedades antioxidantes, inibidoras dos radicais-livres, que reduzem as agressões às artérias; aumenta a taxa de HDL, o chamado colesterol bom; além de conter substâncias que estimulam o sistema antioxidante do organismo. O problema, de acordo com ele, é que o bebedor de vinho dificilmente respeita o limite diário de 30 ml de álcool, o correspondente a duas taças diárias.
''O bebedor de vinho raramente se contenta com duas taças, até porque normalmente ele não toma sozinho'', diz. Nas confrarias de bebedores, continua, é comum a pessoa acabar fumando charuto ou cachimbo; comer queijos e embutidos, dois produtos riquíssimos em gordura saturada. Como o vinho tem alto valor calórico, uma consequência é o aumento da gordura abdominal, o que aumenta o risco cardiovascular. Outra implicação, como trata-se de uma substância sedativa, é a tendência a parar com as atividades físicas.
''Em 18 anos na prática da medicina, nunca vi um bebedor de vinho saudável. A maioria torna-se obesa, sedentária, hipertensa, o círculo abdominal é superior a 102 centímetros, para homens, e de 88 centímetros para mulher, tem triglicerídios alto, acído úrico alto e LDL (colesterol ruim) alto'', afirma.
O médico lembra que as virtudes do vinho surgiram a partir da observação de que na região de Bordeaux, na França, a incidência de doenças cardiovasculares era 30% inferior ao restante do país, o que se chamou se ''paradoxo francês''. ''O vinho é ótimo quando usado lá no interior do Rio Grande do Sul, por pessoas que trabalham o dia inteiro na roça, com gado, e na hora da janta tomam um ou dois cálices de vinho feitos lá mesmo. Para esses italianos é excelente, mas trazido para a capital deixou de ser um hábito saudável. E a pessoa ainda usa o vinho como se fosse medicação, um alimento funcional'', sentencia.


