Vinho gera crise diplomática entre França e Irã Do correspondente Gilles Lapouge


Paris, 30 (AE) - Crise brutal entre a França e o Irã: a visita que o presidente (reformista) Mohammed Khatami devia fazer a Paris, em 12 de abril, acaba de ser secamente adiada "sine die" por um comunicado de Teerã.
Essa visita, a primeira que um chefe da República Islâmica faria à França, parecia muito promissora: para a França, ela constituiria a retomada de relações saudáveis com um país importante. Para o Irã, o fim de uma longa penitência desencadeada pela fúria do imã Khomeini.
Isso significa que o cancelamento repentino da vinda de Khatami só podia se explicar por razões muito importantes.
De fato, a visita esbarrou nas bebidas que seriam servidas a Khatami durante o banquete no Palácio do Eliseu. O enxame de diplomatas que se agita há semanas em torno desse acontecimento havia programado, é claro, vinhos excelentes! Mas que azar! Os muçulmanos não bebem vinho.
O Irã impôs seu "veto". Os diplomatas revêem seu projeto, imaginaram truques, subterfúgios, "jeitos", cada um mais sutil do que o outro.
Alegou-se que o presidente iraniano teria direito à água mineral mais pura do mundo. "Não", foi a resposta.
Um entendido em protocolo sugeriu, dizem os boatos, servir as bebidas em copos coloridos, de maneira que ninguém pudesse ver se era água ou vinho ... Sim, mas Deus, como todos sabem, é perfeitamente capaz de ver através de um copo de vinho colorido. Logo, não ia dar certo.
Os iranianos consideraram todas essas sugestões como indelicadezas, descortesias, que refletem o desdém que a França sente pelos costumes de um país pretensamente amigo, mas de uma religião diferente da cristã. Os franceses dizem que não, mas que um visitante deve respeitar os costumes do país que o recebe. A isso, Teerã, replicou observando que, há pouco, a Itália havia recebido o mesmo presidente Khatami, e simplesmente banido o vinho de todas as recepções oficiais: os ministros italianos, como bons meninos, mataram sua sede com água da fonte.
As discussões ficaram mais ásperas! A França dizia que o vinho é uma parte da cultura francesa, uma parte de sua alma, e de sua essência, da mesma forma que Voltaire ou Delacroix, etc....
Em vão, a visita naufragou. Parece que voltamos à época de Luís XIV, quando o protocolo de Versalhes era uma sucessão de ridículos. Ou então àquela guerra de que fala Jonathan Swift em que se enfrentam dois partidos: aqueles que abrem os ovos cozidos pela extremidade mais larga, e aqueles que preferem quebrá-los pela mais estreita.
Tudo isso é tão grotesco, que desconfiamos que o vinho não passa de uma máscara, de um pretexto, e que, na verdade, foi por razões bem diversas que a visita foi cancelada. O presidente Khatami é um reformista, um moderado. Como tal ele é raivosamente vigiado pelo clã dos integristas, dos imãs retrógrados. E a discussão sobre os vinhos não passaria de uma fachada atrás das quais brilham adagas bem mais afiadas e reluzentes.

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