Nunca se falou tanto em doenças de humor como nos últimos 10 anos. Mas muitos especialistas resistem em admitir que transtornos como depressão, ansiedade e síndrome do pânico sejam um fenômeno contemporâneo. Afirmam que sempre existiram, apenas não eram diagnosticados, tomados como loucura ou mesmo como características excêntricas de personalidade. Há quem discorde: o psiquiatra norte-americano Michael Thase afirma que, sim, males como a depressão tornam-se mais freqüentes no correr das décadas e têm muito a ver com a vida que se leva nas grandes cidades.
  Para ele, a falta de vínculos afetivos deixa as pessoas mais suscetíveis a transtornos mentais. ‘‘Carinho, amparo e intimidade são antídotos contra a depressão.’’ Michael Thase, que esteve no Brasil para participar de um encontro fechado da Federação Mundial para Saúde Mental, é professor do Centro Médico de Psiquiatria da Universidade de Pittsburgh e já publicou 13 livros sobre as doenças do humor. Abaixo, a entrevista que o médico concedeu à reportagem.
  Agência Estado - Qual é a relação entre a depressão e o estilo de vida das grandes
cidades?
  Michael Thase - Há mais depressão hoje que há um século. E mais nas metrópoles que no campo. Isso não quer dizer que todos os que vivem nas grandes cidades ficarão deprimidos. Mas os números impressionam: 10% dos homens e 25% das mulheres sofreram, sofrem ou sofrerão de depressão.
  AE- As pessoas têm ficado mais deprimidas no correr das gerações?
  Michael Thase- Sim. Uma pessoa com 50 anos correria hoje o mesmo risco que seus pais em 70 e seus avós em 90. Agora, não é preciso viver tanto para se deparar com ’oportunidades’ para ficar deprimido. A incidência cresce 2% a cada geração.
  AE- As relações são mais prejudicadas nas grandes cidades?
  Michael Thase - Sim, porque acabamos arrastando problemas emocionais por longos períodos. O casamento infeliz, a falta de diálogo com os filhos, insatisfação com o trabalho, tudo perdura como se não houvesse solução. O que não há, na verdade, é tempo para
solucioná-los.
  AE- O problema não é só
tempo, é?
  Michael Thase - Não. Por causa do trabalho e do tamanho da cidade, fica complicado morar perto dos pais e dos irmãos. Até os amigos parecem se espalhar pelo mundo. Aí, quando você passa por um momento difícil, como perder o emprego, não há ninguém por perto para ampará-lo. O contato humano é uma proteção natural contra a depressão. O carinho, o amparo e a intimidade são antídotos contra a doença.
  AE- Por que 75% dos depressivos nunca procuram ajuda?
  Michael Thase - Deprimida há muito tempo, a pessoa fica confusa, tende a pensar que aquela tristeza toda é uma característica de sua personalidade. Não se lembra mais de como era.

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