Londrina - O edifício do Museu de Arte de Londrina, projetado por Vilanova Artigas, foi um dos melhores presentes que Londrina recebeu. Seus traços modernistas colocaram Londrina no cenário arquitetônico nacional e representam a expressão do espírito vanguardista que a cidade queria demonstrar na época. Projetado para abrigar a rodoviária, o local foi construído em 1952, tombado em 1974 e tornou-se museu de arte em 1997. No entanto, o prédio atualmente está em péssimas condições, com rebocos das paredes caindo, fissuras, vazamentos, pintura das paredes descascando, vidraças trincadas, esquadrias e armações do brise-soleil enferrujadas. Partindo dessa premissa, artistas visuais, fotógrafos, arquitetos e designers que atuam na cidade foram convidados em 2012 a criar gravuras para responder a duas perguntas: Qual devir queremos para o prédio de Artigas? O que cabe a um edifício?
O resultado disso é a exposição "60 anos Artigas", que permanecerá no Museu de Arte de Londrina até 31 de maio. Os artistas produziram uma nova representação visual acerca do prédio do museu a partir de suas poéticas particulares. Foram eles: Álvaro Côrtes, Beto, Danillo Villa, Fernanda Magalhães, Letícia Marquez, estúdio Pianofuzz, Rogério Ghomes, Yan Sorgi e coletivo Grafatório, que também assina a produção do projeto. Ao todo foram produzidas 10 gravuras. De acordo com Felipe Melhado, organizador da exposição e um dos membros do Grafatório, coletivo que assina uma das obras expostas, a mostra retrata não só a precária condição física do edifício, como também o abandono simbólico dele. "O prédio tem uma força simbólica forte porque foi construído explorando essa imagem que liga Londrina à vanguarda cultural", enaltece.
Ele destacou que as respostas às perguntas elaboradas aos artistas geraram respostas múltiplas em alguns casos e em outros geraram outras perguntas. "Demos total liberdade a eles para que pensassem sobre o assunto. Cada um deles, com sua técnica, desenvolveu a sua obra. Só foi solicitado que a técnica utilizada fosse a serigrafia para dar uma homogeneidade ao projeto", explica.
Em uma das obras a cor predominante é o dourado e é possível ver uma representação do prédio do museu acompanhado por um ônibus e ruínas. Segundo o autor da obra, Yan Sorgi, o foco recaiu mais sobre a memória. "O ônibus antigo simboliza o começo do prédio e as rachaduras demonstram o que está se passando com o imóvel, que está mal conservado", explicou. Ele destacou que as pessoas não possuem muito acesso ao prédio, mesmo os artistas não têm muito acesso ao museu. Ele apontou que o espaço é grande e isso gera muitas possibilidades de uso que não têm sido aproveitadas. "Essa iniciativa da exposição é legal. Trazer apenas alunos de escolas é muito pouco, principalmente por ser um prédio do Artigas. As pessoas não conhecem muito a sua história", destaca.
Maikon Nery, do estúdio Pianofuzz, que também contribuiu com uma gravura, explicou que o processo de criação das obras passou por três etapas. Na primeira os artistas procuraram registros da opinião do Artigas sobre essa obra. Na década de 70 Artigas declarou: "A estação rodoviária ficou de tal forma ligada ao povo, que o Serviço de Patrimônio Histórico quis tombar. Eu fiquei contente, não porque fui eu que fiz. Nada a ver com a forma feita. Depois de feita, a diaba vira as costas, esperneia por todo lado, faz o que bem entende. Vai embora, faz seus casamentos, se esfrega com o povo e ganha qualidade própria. E o povo se serve, como uma caneca velha, estende roupas. A obra artística criada, que foi produto do pensar, assume independência".
Na segunda etapa os artistas realizaram um levantamento fotográfico do edifício e em terceiro lugar relacionaram o que a obra era antes e o que é hoje e o espaço em que o prédio esteve inserido naquela época e hoje. "Hoje a Rua Sergipe é bastante movimentada, então procuramos mostrar essa simbiose das pessoas com a obra de Artigas", destaca.
Segundo o próprio texto da exposição, "Atrás das grades que não existiam no projeto original, e despercebido em uma das ruas comerciais mais movimentadas da cidade, o prédio corre o risco de perder a força simbólica que uma vez fez dele um emblema de Londrina. As novas gerações de londrinenses podem não conhecer a riqueza estética e a importância histórica que o prédio possui".
As 10 serigrafias serão comercializadas a R$ 260, sendo que a tiragem de cada obra é de 60 exemplares.

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