Pyla, Chipre (AE-AP) - Cipriotas gregos e turcos vivem calmamente e juntos nesta vila. Mas as crianças vão para escolas separadas e jogam futebol em campos separados. Seus pais bebem café e fofocam em locais diferentes.
Trata-se de uma tensa sensação de unidade numa das poucas vilas onde as duas etnias convivem pacificamente, embora alguns acreditem que oferece um modelo para a reunião da dividida ilha.
"Muitas pessoas dizem que nós, gregos e turcos, não podemos viver juntos em paz, mas aqui em Pyla nós provamos todos os dias que podemos", diz Takis Costa, 63, bebendo café num local grego na praça principal, onde as torres de uma mesquita sobrepõem-se às da igreja no coração da vila.
Após anos de violência étnica, o Chipre foi dividido em 1974, quando o exército turco invadiu e ocupou um terço do país, ao norte, depois de um golpe realizado por cipriotas gregos que apóiam a união com a Grécia. O estado cipriota turco é reconhecido apenas pela Turquia, que mantém 35 mil soldados na ilha.
Gregos étnicos e turcos vivem juntos há séculos em Pyla, mantendo a união ao longo dos anos de violência, das lutas de 1974 e dos vinte e cinco anos divisão.
O vila é patrulhada por soldados norte-americanos que vigiam a zona divisória entre os dois lados da ilha e está também próxima à base militar britânica, dois fatores que aumentam a segurança e pode até mesmo persuadir os residentes a ficar. Cerca de 800 gregos e 400 turcos vivem em Pyla, localizada a cerca de 40 quilômetros ao sudoeste de Nocosia, a capital da ilha.
Após anos de brigas internacionais, os líderes dos dois lados do Chipre estão agora considerando a possibilidade de reunir as duas partes. As negociações de reunificação começaram sob a supervisão da ONU em Nova York no mês passado. O líder cipriota grego Glafcos Clerides e o líder cipriota turco Rauf Denktash devem retomar as conversações no final de janeiro.
Mas os grupos estão bastante distantes.
Denktash quer apenas uma fraca conecção entre os estados independentes turco e grego. Clerides prevê um sistema federal com cada comunidade governando seus próprios problemas locais, mas defesa e políticas externas devem ser decididas por um governo central no qual os dois grupos são representados.
Mesmo em Pyla, a idéia de que gregos e turcos étnicos possam ser capazes de trabalhar juntos é testada. A ONU doou US$ 1 milhão alguns anos atrás para que a vila fizesse uma mais do necessária reforma, mas os dinheiro continua disponível em sua maior parte porque os líderes das duas comunidades da vila não concordaram sobre detalhes dos trabalhos.
Os atritos também voltam de tempos em tempos com questões como suprimento de água ou a participação em programações combinadas com a força policial da ONU presente na ilha ou quando e onde cada lado pode hastear as bandeiras nacionais da Grécia ou Turquia.
As bandeiras tremulam permanentemente sobre as duas escolas de Pyla. Fora isso, elas são permitidas em ocasiões especiais, como feriados nacionais, mas apenas por períodos limitados, em locais como clubes esportivos e cafés.
"Uma reclamação comum é de que a bandeira foi hasteada muito cedo ou recolhida muito tarde", diz Bridget Shelley, irlandês que faz parte do grupo de seis oficiais da força policial da ONU situada em Pyla e que trabalha com a força de 35 homens da força de paz australiana.
Os residentes, porém, subestimam os problemas ocasionais e parecem felizes ao projetar a imagem da vila que vive em harmonia. Pyla praticamente não sofre com a criminalidade e ficou intocada pela violência étnica que destruiu o Chipre nos anos 50 e 60.
Com a praça central ressoando a amplificada e melancólica voz do imam da mesquita que chama para a oração de fé, Costa lembra que a construção da mesquita causou "alguma tensão" dez anos atrás.
"Não é verdade", declarou Nicholas Georgiou, outro patrono sexagenário do café cipriota grego. "Tais tensões são inventadas por políticos e intrusos". Em qualquer outro lugar no Chipre há um abismo econômico entre cipriotas gregos e turcos. A média do PIB do lado grego é de US$ 15 mil por pessoa, quase cinco vezes o a média da população de origem turca. Mas em Pyla, ambas as comunidades ganham salários similares com agricultura e empregos na cidades próximas ou na base britânica de Dekhelia.
Muitos dos 700 mil cipriotas gregos da ilha parecem acreditar que as duas comunidades podem viver juntas novamente, mas analistas dizem que seu otimismo origina-se em parte por seu estado melhor status e sua relativa prosperidade econômica.
Os cipriotas turcos, que são 120 mil na ilha, temem que o fato de serem minoria possa significar viver sob a sombra da dominante cultura grega.
Algumas pessoas em Pyla parecem resignadas a viver distantes de seus vizinhos.
"Eu acho que é melhor para nós vivermos separados", diz Kareem Pasha, 40 anos, um construtor cipriota turco que tem dois filhos.

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