Marília (SP), 9 (AE) - Depois de mais de 12 horas de interrogatório, o vigia noturno Manoel Messias Alves Martins confessou, na madrugada de hoje, ter incendiado 39 dos 49 veículos destruídos em Marília desde o dia 14 de janeiro. "Fui tomado por uma força estranha, que me fazia beber, me deixava tonto e me fazia praticar isso", justificou.
Para a polícia, que agora deve pedir a prisão preventiva do incendiário, ele agia por vandalismo, com a finalidade de assustar os moradores e conseguir trabalho.
Messias permaneceu até às 2 horas prestando depoimento e
ao final, o delegado José Carlos Costa, diretor da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), disse que ele não seria apresentado aos jornalistas, mas divulgou o conteúdo de uma gravação em que ele confessa, em detalhes, os incêndios praticados.
O vigia afirma ser evangélico e, mesmo não sendo pastor, fundou há quatro meses a Igreja Jesus Cristo Salva. Durante o depoimento, destacou que "ficava realizado" quando via um carro queimando. Da mesma forma, afirmou que "ficava mal", quando não conseguia incendiar um carro. Se isso acontecia, voltava ao local e fazia nova tentativa.
O incendiário esclareceu que sempre agiu durante a noite
deixando temporariamente o trabalho de vigia noturno que realizava em algumas quadras do Jardim Ohara. Para queimar os veículos, usava álcool, que era transportado em frascos próprios e embalagens de iogurte.
"Só uma vez, em que estava sem álcool e queimei a cabine de um caminhão e um automóvel Fiat, em uma mesma noite, usei como combustível o conteúdo de um frasco de desodorante", relatou.
Messias admitiu ter incendiado em uma mesma noite, em 21 de julho, seis carros. Foram dois Corsa, um Ford F.l3.000, um Gol, um Monza e um Escort. Para queimar um deles, teve de pular o portão de uma casa. "Mas foi tudo muito rápido e depois fui dormir na casa de minha sogra", disse.
Em outra casa, onde incendiou um Corsa prata, pertencente a uma estudante, Messias agiu mesmo percebendo que um grupo de pessoas participava de um churrasco, nos fundos da residência. Ele disse que em algumas ocasiões chegou a ser visto por testemunhas, mas que acabou passando desapercebido porque sempre usava o colete que o identifica como vigilante noturno.
Mesmo com a divulgação de seu retrato-falado, elaborado pela polícia com base nos depoimentos de dois funcionários de uma farmácia, onde Messias esteve comprando álcool pouco antes de incendiar dois carros na Vila Jardim, ele disse que não ficou preocupado. "O retrato não era parecido comigo, pois havia chovido, estava sem o boné e meu cabelo estava desarrumado."
O vigia admitiu ainda que tentou, sem sucesso, incendiar um Passat azul que estava estacionado na Rua Paraná. A polícia disse que esta ocorrência não foi registrada e que pretende investigá-la.
Confissão - Messias resolveu confessar os atentados depois que ficou sabendo que o juiz de direito Décio Divanir Mazeto concordou em prorrogar por mais cinco dias o mandado de prisão temporária, que permitia à polícia prosseguir nas investigações.
Ele estava sendo levado pelo delegado José Carlos Costa e investigadores da DIG, até uma casa na Rua Washington Luiz, para onde admitiu ter telefonado para passar um trote. Antes de chegar, resolveu falar: "Nas duas noites que passei preso, permaneci orando e pedindo a Deus para me dar coragem de confessar e Ele me ajudou", disse. Messias contou que estava aliviado desde que resolveu falar. "Isto tinha que terminar."
A confissão do vigia surpreendeu sua mulher, Zilda Pereira Machado, que o visitou ainda durante o interrogatório e deixou a delegacia chorando muito, sem dar declarações. Aos amigos, mais tarde, ela reclamou que o marido não estava tendo assistência de advogados e disse que pretende requerer exame de sanidade mental de Messias.
O delegado Seccional de Polícia, Joaquim Olímpio Cruz, confirmou que o vigia não teve assistência de advogados durante o interrogatório, mas lembrou que o juiz Mazeto e a Promotoria Pública estavam sendo informados de todos os detalhes das apurações. Cruz admitiu que, a partir de agora, a polícia vai trabalhar para conseguir testemunhas que confirmem a atuação de Messias.
Para o delegado José Carlos Costa, Messias confessou todos os atentados que praticou e disse acreditar que os dez veículos queimados, sobre os quais ele não assume a autoria, foram incendiados por vingança ou por seguidores do incendiário. "Alguns desses casos já foram esclarecidos", ressaltou.
Segundo a polícia, o vigia foi indiciado por crimes de incêndio, podendo ser condenado de três a seis anos em cada atentado praticado.

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