Vídeo mostra violência nas desocupações
Dimitri do Valle
As desocupações promovidas pela Polícia Militar no Noroeste do Estado não foram tão pacíficas e legais como vem alegando a Secretaria da Segurança Pública. A Folha obteve trechos de fitas de vídeo amador feitas pela Polícia Militar que mostram policiais atacando em plena madrugada, com bombas de efeito moral, a fazenda Cobrinco, que era ocupada pelos sem-terra. A área fica no município de Santa Cruz do Monte Castelo.
Pela lei, os mandados de reintegração de posse só poderiam ser cumpridos a partir das 6 horas da manhã, o que não foi respeitado nas operações promovidas no mês passado na Cobrinco e na fazenda Arapongas, em Mirador. As fitas só demonstram que a PM é que faz a reforma agrária no Estado do Paraná, criticou o coordenador estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Roberto Baggio.
O promotor Marcos Bittencourt Fowler, da Promotoria de Garantias Constitucionais, já havia antecipado a este jornal, na quinta-feira passada, que as 14 operações de desocupação realizadas entre abril e maio, no Noroeste, foram consideradas ilegais. Eles (policiais) se valeram dos mandados de reintegração para cometer algumas arbitrariedades, afirmou Fowler. Os vídeos reforçam a argumentação do promotor de que a Polícia Militar agiu à margem da lei e na calada da noite.
Tanto na Fazenda Arapongas como na Cobrinco os policiais utilizaram o mesmo método de chegada às propriedades: em marcha lenta, o comboio de viaturas se aproxima das áreas com as luzes apagadas para não despertar a atenção. Na entrada principal, eles rendem os sem-terra que estão de guarda.
Na Fazenda Cobrinco, onde se encontram 45 famílias, a retomada da área pelos policiais é precedida de explosões ocasionadas por bombas de efeitos moral. É a senha para o início da operação. A correria começa. Centenas de policiais desembarcam dos ônibus, camburões e viaturas. Em disparada, entram nos acampamentos.
Ouvem-se também diversos disparos de revólveres. Os PMs, alguns encapuzados, entram nos barracos e, aos berros, acordam os agricultores: Saiam, saiam com as mãos na cabeça. É a polícia. Todos para o chão! Os homens são rendidos e alguns, algemados. Todos são colocados de bruços na terra úmida do acampamento para serem revistados. Mulheres e crianças são encaminhadas para a sede da propriedade.
A desocupação da fazenda Cobrinco teve início por volta das 2 horas da madrugada do dia 21 de maio, uma sexta-feira. É o que registra o próprio vídeo da PM feito durante a operação. Legalmente, os policiais só poderiam entrar ali após as 6 horas da manhã. Diante da câmera, os sem-terra são identificados e interrogados. Os PMs querem saber como chegaram à fazenda e quem são os líderes do acampamento.
O mais importante para os policiais é saber se os interrogados sofreram abusos. Todos dizem que não. No entanto, existe a suspeita de agressões policiais na fazenda Cobrinco. O lavrador Geraldo José dos Santos, de 84 anos, acabou sendo ferido na desocupação. Ele acusa policiais de o terem espancado a chutes. Santos chegou a ser transferido para Curitiba, onde ficou internado durante oito dias.
Na madrugada de domingo, dia 23 de maio, os policiais prosseguem a operação no Noroeste do Estado. Dessa vez, a missão é retirar os sem-terra da Fazenda Arapongas, onde estavam acampadas 60 famílias. Os agricultores foram surpreendidos apenas pela entrada silenciosa dos policiais, mas os caracteres exibidos no canto esquerdo do vídeo da operação denunciam que a polícia entrou na fazenda às 2h07. Seis sem-terra foram presos na ação.
Todos os homens são colocados de bruços na terra úmida e vigiados de perto por policiais e cães da raça pastor alemão. As imagens mostram um sem-terra sendo chamado para perto do policial responsável pela identificação. Quando o sem-terra começa a se deitar novamente para iniciar a entrevista, policiais têm de fazer esforço para segurar dois cães que se preparam para atacar o agricultor. Os PMs entrevistam agricultores em frente à câmera. Numa delas, um policial pede que o interrogado confirme a ele que são 3h20 da manhã. O sem-terra olha o relógio do policial e ratifica o horário.Gravações feitas pela própria PM, e obtidas pela Folha, contestam versão oficial de que ações foram pacíficas
ReproduçãoIntimidaçãoSem-terra foram obrigados a se deitar no chão, sob a vigilância de policiais e cães da raça pastor alemãoReproduçãoUniãoTrecho da fita indica suposto apoio logístico da UDR às ações da Polícia Militar para reintegrar áreas





