Os brasileiros vão entrar no novo milênio com mais crianças nas escolas, famílias menores e uma população crescente de homens e mulheres com mais de 60 anos, de acordo com os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada ontem no Rio, que abrange os últimos dez anos.
A pesquisa mostra que os brasileiros vivem também melhor do que antes: a maioria tem acesso a água encanada, saneamento básico, eletricidade e, nos últimos anos, equipou sua casa com telefones - fixos e, principalmente, celulares -, máquina de lavar, geladeira e fogão.
Hoje, 87,7% das casas têm televisão, 89,9%, rádio e 82,8%, geladeira. A expectativa é que, nos próximos anos, as diferenças que separam os brasileiros muito ricos dos muito pobres fiquem cada vez menores - o próprio IBGE reconhece que o País ainda tem uma das piores taxas de distribuição de riqueza do mundo.
No ano passado, a renda mensal do brasileiro foi, em média, de R$ 525. As mulheres continuam a conquistar espaço no mercado de trabalho, mas em termos salariais recebem o equivalente a 69,1% do que ganha um homem. No último ano, com safra recorde, o número de trabalhadores no campo aumentou, voltando aos índices de 1997. A indústria teve queda, o comércio manteve o número de empregos e o setor de serviços foi o que mais cresceu.
O trabalhador brasileiro conheceu uma nova realidade salarial na década de 90. Os anos 80 foram um período turbulento, com oscilações que levaram o rendimento médio mensal da população a vazantes como a 84, com R$ 386,00 (os valores já estão atualizados pelo IBGE) ou a picos como o de 86 que, com a propulsão do Plano Cruzado, fizeram a renda média saltar para R$ 624,00. A prosperidade, porém, durou pouco e, logo em seguida os salários retomaram uma trajetória descendente, com um breve fôlego em 89, para voltar a uma queda contínua até 92.
No início dos anos 90, a população amargava um achatamento salarial, natural do período recessivo pelo qual passava o País, que começou a ser revertido em 93, um ano antes do real. A partir daí foi mantida a curva positiva até 96. No ano seguinte, as crises internacionais atropelaram a ascenção dos salários e as perdas permaneceram até o ano passado. Pelos dados do IBGE, o ganho real dos salários foi de 21% de 93 a 99. Comparações de períodos mais recentes, porém, levam, invariavelmente, a resultados negativos: de 95 a 99 a perda foi de 6,4%; de 97 a 99, de 7,9%, e de 98 a 99, de 6,2%.
‘‘No Plano Collor, o processo recessivo causou a queda de rendimento e também a concentração de renda’’, Vandeli Guerra, chefe do Departamento de Emprego e Rendimento do IBGE. ‘‘A partir do Real, começamos a caminhar na direção da desconcentração do rendimento e, em 95, tivemos queda da concentração de renda e aumento no rendimento.’’ Entre 98 e 99 houve perdas em todas as camadas salariais. Vandeli Guerra admite que a situação, neste período, foi a mesma que no Plano Collor, embora não na mesma dimensão.
O presidente do IBGE, Sérgio Besserman, admite que ‘‘a melhoria na direção da desconcentração se deve à perda de rendimento da população’’, mas lembra que a situação poderia ser pior. ‘‘Quando não há inflação, constatamos fenômenos como o que está ocorrendo agora, com os ricos perdendo mais do que os mais pobres.’’ Com inflação, lembra o economista, quem está entre as camadas mais favorecidas tem como se defender, com aplicações que garantem a manutenção de seus rendimentos.

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